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Artigos › 23/07/2018

Diálogos socioculturais

A crise antropológica do mundo atual exige de cada pessoa, particularmente das que exercem liderança, novo entendimento na compreensão da realidade. Não é possível intuir as soluções para os problemas que se apresentam, sem os adequados tratamentos analíticos e sistêmicos. Há uma complexidade exigente que só pode ser compreendida a partir de análises socioculturais profundas e assertivas. Embora seja importante, não basta simplesmente desenvolver estudos, considerando um campo restrito do saber. Fundamental é mobilizar mais esforços para enxergar as singularidades das dinâmicas que determinam a trajetória de grupos, segmentos da sociedade, nações e povos. Assim, torna-se possível alcançar uma compreensão básica da cultura e do contexto social para promover as transformações necessárias.

A falta de clareza em relação às dinâmicas socioculturais enjaulam pessoas, grupos e instituições em uma visão estreita, induzindo todos à repetição de equívocos, pois quando não são reformuladas posturas e parâmetros, as inovações necessárias para a promoção do bem se tornam distantes. O que prevalece é a manutenção do que sempre foi. São desperdiçados recursos humanos e materiais – investidos, não raramente, apenas para alimentar processos estéreis, incapazes de minimizar as carências e os descompassos sociais. Consequentemente, instituições se enfraquecem e perdem a capacidade de promover a adequada agregação.

Esse cenário traz sérios riscos de muitos colapsos, pela carência de novos entendimentos antropológicos, necessários para que floresça todo o potencial humanístico de uma civilização. E, lamentavelmente, temas importantes para a vida em sociedade não são devidamente analisados, refletidos. Com isso, há um distanciamento da realidade, que leva ao desconhecimento e ao marasmo. Afinal, todos reconhecem que, diante dos muitos problemas atuais, é preciso mudar, mas o problema é que muitos não sabem o que fazer. Permanecem, assim, reproduzindo respostas e posturas marcadas pela mediocridade, ou se submetem a certas dinâmicas que parecem novas, mas, sendo mal fundamentadas, levam ao caminho do fracasso.

Essa situação se perpetua também a partir das atitudes de pessoas que até receberam sólida formação conceitual, com conquistas acadêmicas relevantes, e mesmo assim são incapazes de enxergar a complexidade do atual momento sociocultural. Uma inabilidade que atinge líderes políticos, religiosos, culturais e tantos outros que apenas reproduzem a mesmice. Pessoas que promovem ações e movimentos repletos de volume – “fazem barulho” – mas são desprovidos de energia para reconfigurar procedimentos, funcionamentos e modos de pensar. Consequentemente, não contribuem para a necessária mudança cultural. Assim, esses cidadãos agem de modo alinhado com uma sociedade que busca fazer de tudo um espetáculo, muitas vezes a partir da demagogia, com o único objetivo de conquistar visibilidade midiática.

Na sociedade do espetáculo, o que é realmente importante não consegue aparecer, ser visto. Os processos educativos formais, as instituições e o contexto familiar perdem espaço, e os cidadãos, consequentemente, não alcançam a condição necessária para dar novos passos rumo a um futuro melhor. Já são conhecidas as estatísticas que indicam a perda de credibilidade de diferentes contextos institucionais – religioso, político, educacional, cultural e tantos outros – que passam a ser percebidos com certa indiferença. Sem a adequada compreensão da realidade sociocultural, e o consequente enfraquecimento das instituições, a sustentabilidade do planeta, o compromisso ético-moral, a vida das pessoas, correm risco.

É preciso que as pessoas, nas suas instituições, se dediquem a compreender melhor o contexto social, para intervir qualificadamente na realidade. Não se pode permanecer na ilusória convicção de que se está fazendo o certo, promovendo o bem, quando, na verdade, atua-se na contramão de interesses mais nobres, altruístas, relacionados ao bem comum. É hora de todos se iluminarem a partir de eficazes diálogos socioculturais, que permitam, a cada pessoa, compreender melhor e assumir as próprias responsabilidades na construção do tempo novo almejado por todos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (BH)


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