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Em maio de 1917, a Senhora cheia de graça anuncia-se transbordando a luz de Deus, na qual os videntes se reveem «mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos». Na experiência mistagógica da luz que emana das mãos da Senhora, os pequenos pastores são preenchidos por uma presença que se grava indelevelmente no seu íntimo e os sagra testemunhas proféticas da misericórdia de Deus que, desde o fim da história, ilumina o enredo do drama humano.

O segredo que em Fátima se dá é precisamente revelação do mistério humano à luz de Deus. Nas imagens que se sucedem no olhar de Jacinta, Francisco e Lúcia, oferece-se a síntese do drama difícil da liberdade humana. A visão do inferno é memorial de que a história se abre sobre outros horizontes, mais definitivos do que o imediato, e que Deus anseia tanto por esse encontro escatológico em que a pessoa é recuperada para o amor quanto preza a sua liberdade. Assim também, a visão da Igreja mártir – que, encabeçada pelo bispo vestido de branco, atravessa as ruínas da grande cidade, carregando o seu sofrimento e a sua oração, para se prostrar, por fim, diante da Cruz – evoca uma história humana sufocada nas ruínas dos seus confrontos e dos seus egoísmos, e uma Igreja que carrega essas ruínas, qual via crucis, para se entregar finalmente a Deus em dom total, diante da Cruz – símbolo do dom total do próprio Deus. Essa Igreja é semente de um outro jeito de vida cheio de graça, à imagem do Coração Imaculado de Maria. O coração daquele que se consagra a Deus é imaculado pela sua misericórdia e, por ela, ungido em missão. O segredo que em Fátima se dá é revelação da confiança de que, por fim, este Coração Imaculado cheio de graça triunfará.

O jeito crente do Coração Imaculado oferece-se como oração e como sacrifício.

A Senhora do Rosário convoca insistentemente os videntes à oração, esse lugar de encontro em que se enraizará a sua intimidade com Deus. Os traços concretos da oração pedida em Fátima são os do rosário, recordado pela Senhora em cada uma das seis aparições, sob o signo da urgência. Nesta pedagogia humilde da fé orante, o crente é convocado a acolher os mistérios do dom maior do Cristo no seu coração e a deixar-se interpelar pelo seu amor que redime as feridas da liberdade humana. Que o rosário seja apontado como caminho para a paz é sinal de que o acolhimento do Verbo enche de graça o coração humano, cativo do egoísmo e da violência, e pacifica a história com a coragem dos humildes.

A intimidade com Deus transforma a vida em sacrifício pelos irmãos, particularmente aqueles sobre quem recai o olhar compassivo de Deus. O dom de si, eis o que significa o sacrifício. Amado como filho, o coração humano renova-se à imagem do Pai e assume toda a sua paixão pela humanidade. Face aos dramas do mundo, a liberdade centrada em Deus implica-se nos seus desígnios de misericórdia que abarcam cada mulher, cada homem, na missão reconciliadora do Filho de reunir a todos num só redil (Jo 10,16). Na gramática difícil do sacrifício, a vida é corajosamente assumida na sua verdade e a liberdade é polida para o dom de si.

Como que na transparência deste dom de si pelos outros, brota o convite à consolação do Deus de toda a consolação (2Cor 1,3). No desconcerto deste convite se manifesta a verdadeira amizade com Deus. O olhar do íntimo de Deus encontra a sua tristeza face aos vazios de amor dos dramas da história e das liberdades humanas, e deixa-se comover, para logo desejar consolar o próprio Deus.

No último encontro com a Senhora do Rosário, em outubro, a esperança na promessa do triunfo do Coração cheio de graça é selada com a bênção do Cristo.

Por Santuário de Fátima

  • Manifestações de 1915

Em 1915, no cimo do Monte do Cabeço, Lúcia e três suas companheiras – Teresa Matias, sua irmã Maria Rosa e Maria Justino – presenciaram manifestações assim descritas nas Memórias da vidente:

«Mal tínhamos começado [a rezar o terço], quando, diante de nossos olhos, vemos, como que suspensa no ar, sobre o arvoredo, uma figura como se fosse uma estátua de neve que os raios de sol tornavam algo transparente.

– Que é aquilo? – Perguntaram as minhas companheiras, meias assustadas.

– Não sei!

Continuámos a nossa reza, sempre com os olhos fitos na dita figura que, assim que terminámos, desapareceu.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 75.

Por Santuário de Fátima

  • Primeira aparição do Anjo

Local: Loca do Cabeço, Pregueira nos Valinhos

Data: primavera de 1916

«– Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.

E ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:
– Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam, e não vos amam.

Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:
– Orai assim. Os corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 169 (IV Memória). Cf. também Memórias da Irmã Lúcia I, p. 77-78 (II Memória).

  • Segunda aparição do Anjo

Local: Quintal da casa de Lúcia, junto ao Poço do Arneiro

Data: verão de 1916

«– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

– Como nos havemos de sacrificar? – perguntei.

– De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores.

Atraí, assim, sobre a vossa Pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010 p. 170 (IV Memória).

  • Terceira aparição do Anjo

Local: Loca do Cabeço

Data: outono de 1916

«[…] trazendo na mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálice, algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração:
– Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.

Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo:
– Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.
De novo se prostrou em terra e repetiu connosco mais três vezes a mesma oração.

– Santíssima Trindade… etc.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 170-171 (IV Memória).

Por Santuário de Fátima

  • Primeira aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 13 de maio de 1917

«– Não tenhais medo! Eu não vos faço mal!

– De onde é Vossemecê? – lhe perguntei.

– Sou do Céu.

– E que é que Vossemecê me quer?

– Vim para vos pedir que venhais aqui, seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

[– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?– Não te posso dizer ainda enquanto não te disser também o que quero.]

– E eu também vou para o Céu?

– Sim, vais.

– E a Jacinta?

– Também.

– E o Francisco?

– Também, mas tem que rezar muitos Terços.
[…] – E a Maria das Neves já está no Céu?

– Sim, está.

– E a Amélia?

– Estará no purgatório até ao fim do mundo.
[…] – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

– Sim, queremos!

– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:
– Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
– Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 172-173 (IV Memória); a secção entre parênteses retos pertence ao interrogatório do pároco aos videntes, em 27 de maio de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p. 9.

  • Segunda aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 13 de junho de 1917

Pessoas presentes: 50 a 60

«– Vossemecê que me quer? – perguntei.

– Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o Terço e que aprendam a ler. Depois direi o que quero.
Pedi a cura dum doente.

– Se se converter, curar-se-á durante o ano.

– Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu.

– Sim; a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. [A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono].

– Fico cá sozinha? – perguntei, com pena.

– Não, filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.

Foi no momento em que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora, estava um coração cercado de espinhos que parecia estarem-lhe cravados.

Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 175-176 (IV Memória); a secção entre parênteses retos inclui o acréscimo indicado pela Irmã Lúcia na sua carta de Tuy de 17 de dezembro de 1927: cf. Memórias da Irmã Lúcia I, p. 175, nota 14.

  • Terceira aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 13 de julho de 1917

Pessoas presentes: 4000 a 5000 ou 2000 a 3000

«– Vossemecê que me quer?

– Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer.

– Queria pedir-lhe para nos dizer Quem é, para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.

– Continuem a vir aqui todos os meses. Em Outubro direi quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão-de ver, para acreditar.

[– Tenho aqui um pedido se Vossemecê converte uma mulher do Pedrógão e uma da Fátima e se melhora um menino da Moita.Ela disse que os convertia e melhorava entre um ano.]

– Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes alguns sacrifícios: “Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados.

O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes [incêndios], sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor (deveu ser ao deparar-me com esta vista que dei esse ai! que dizem ter-me ouvido). Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa. Assustados e como que a pedir socorro, levantámos a vista para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:
– Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da Fé.
{Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: “Penitência, Penitência, Penitência!” E vimos numa luz imensa que é Deus algo semelhante a como se vêem as pessoas num espelho quando lhe passam por diante um Bispo vestido de Branco; tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vários outros Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.}

Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.

Quando rezais o Terço, dizei depois de cada mistério: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.

Seguiu-se um instante de silêncio e perguntei:

– Vossemecê não me quer mais nada?

– Não. Hoje não te quero mais nada.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 176-177 (IV Memória); a secção entre parênteses retos consta do interrogatório do pároco, de 14 de julho de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p 13-15; a secção entre chavetas constitui a célebre terceira parte do segredo de Fátima (Memórias da Irmã Lúcia I, p. 213).

  • Quarta aparição de Nossa Senhora

Local: Valinhos

Data: 19 de agosto de 1917

Pessoas presentes (no dia 13): 15000 a 18000, embora alguns escritos falem de apenas 5000

«– Que é que Vossemecê me quer?

– Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13, que continueis a rezar o Terço todos os dias. No último mês, farei o milagre para que todos acreditem. [Se não tivessem abalado contigo para a Aldeia seria o Milagre mais conhecido; havia de vir São José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um Anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.]

– Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?

– Façam dois andores: um leva-lo tu com a Jacinta e outras duas meninas, vestidas de branco; o outro leva-o o Francisco com três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é para a ajuda duma capela que hão-de mandar fazer.

– Queria pedir-lhe a cura dalguns doentes.

– Sim, alguns curarei durante o ano.

E tomando um aspecto mais triste:
– Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 178-179 (IV Memória); a secção entre parênteses retos consta do interrogatório do pároco, de 27 de agosto de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p. 17.

  • Quinta aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 13 de setembro de 1917

Pessoas presentes: 20000 a 30000

«– Continuem a rezar o Terço a Nossa Senhora do Rosário, todos os dias, [que abrande ela a guerra] para alcançarem o fim da guerra, [que a guerra está para acabar]. Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, S. José com o Menino Jesus para abençoarem o Mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia.

– Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: a cura de alguns doentes, dum surdo-mudo.

– Alguns curarei, outros não, [porque Nosso Senhor não quer crer neles]. Em Outubro farei o milagre para que todos acreditem.

[– O povo muito gostava aqui duma capelinha.– [De] metade do dinheiro que juntaram até hoje façam dois andores e dêem-nos à Senhora do Rosário; a outra metade seja para ajuda da capelinha.

Ofereci-lhe duas cartas e um vidro com água-de-cheiro.

– Deram-me isto, se Vossemecê os quer.

– Isso não é conveniente lá para o Céu.]»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 179 (IV Memória); as secções entre parênteses retos constam do interrogatório do pároco, de 15 de setembro de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p. 21-22.

  • Sexta aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 13 de outubro de 1917

Pessoas presentes: 50000 a 70000

«– Que é que Vossemecê me quer?

– Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias. A guerra vai acabar [ainda hoje] e os militares voltarão em breve para as suas casas.

– Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc.

– Uns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.
E tomando um aspecto mais triste:

– Não ofendam mais a Nosso Senhor que já está muito ofendido! {Se o povo se emendar, acaba a guerra e, se não se emendar, acaba o mundo.}
[– Ainda me quer mais alguma coisa?

– Já não quero mais nada.] E, abrindo as mãos, fê-las reflectir no Sol. E enquanto que se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projectar no Sol.
[…] Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. São José com o Menino pareciam abençoar o Mundo, com os gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo.»

Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 180-181 (IV Memória); a secção entre parênteses retos consta do interrogatório do pároco, de 16 de outubro de 1917, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I. Fátima: Santuário de Fátima, 1992, p. 24, e a secção entre chavetas do interrogatório do Dr. Formigão, em Documentação Crítica de Fátima, vol. I, p. 142.

  • Sétima aparição de Nossa Senhora

Local: Cova da Iria

Data: 15 de junho de 1921

Contexto: Véspera da partida de Lúcia para o asilo do Vilar

D. José encontrou-se pela primeira vez com Lúcia por volta de 1920-1921 e interrogou-a acerca dos acontecimentos. Propôs-lhe deixar Fátima para ir para o Porto, porque lá ainda não era conhecida.

Do diário da Irmã Lúcia:

«De novo, em Fátima, guardei inviolável o meu segredo. Mas a alegria que senti ao despedir-me do Senhor Bispo, durou pouco tempo. Lembrava-me dos meus familiares, da casa paterna, da Cova da Iria, Cabeço, Valinhos, do poço… e agora deixar tudo, assim, de uma vez para sempre? Para ir não sei bem para onde…? Disse ao Sr. Bispo que sim, mas agora vou dizer-lhe que me arrependi e que para aí não quero ir.»

Estava nesta luta, quando foi à Cova da Iria:

«Assim solícita, mais uma vez desceste à terra, e foi então que senti a Tua mão amiga e maternal tocar-me no ombro; levantei o olhar e vi-Te, eras Tu, a Mãe bendita a dar-me a mão e a indicar-me o caminho; os Teus lábios descerraram-se e o doce timbre da tua voz restituiu a luz e a paz à minha alma: “Aqui estou pela sétima vez, vai, segue o caminho por onde o Senhor Bispo te quiser levar, essa é a vontade de Deus.”
Repeti então o meu “sim”, agora bem mais consciente do que, o do dia 13 de Maio de 1917 e enquanto que de novo Te elevavas ao Céu, como num relance, passou-me pelo espírito toda a série de maravilhas que naquele mesmo lugar, havia apenas quatro anos, ali me tinha sido dado contemplar.»

Boletim Bem-aventurados Francisco e Jacinta. Fátima: Postulação de Francisco e Jacinta Marto, janeiro-março 2006.

Por Santuário de Fátima

Os três pastorinhos tinham tudo para uma vida simples, anônima, mas acabaram por entrar para a História, não só da Igreja Católica em Portugal e no mundo, mas também da humanidade, como testemunhas privilegiadas de Aparições num pequeno local chamado Cova da Iria, perto de Fátima, no centro do país.

Como pequenos pastores que eram, ficaram para sempre conhecidos como “os Três Pastorinhos” ou “os Videntes de Fátima” a quem Nossa Senhora do Rosário apareceu por seis vezes em 1917, faz agora 100 anos.

Lúcia, na altura com 10 anos, e os seus primos Francisco, com 9, e Jacinta, com 7, irmãos, foram os escolhidos para receberem a Mensagem em que a “Senhora mais brilhante que o Sol” pedia orações, sacrifícios e reparação das ofensas ao seu Imaculado Coração e a Deus.

A Lúcia foi dado ver, ouvir e falar durante as Aparições, enquanto Jacinta podia ver e ouvir. Francisco podia apenas ver, pelo que a prima e a irmã lhe relatavam depois tudo o que tinham ouvido.

Lúcia

Nascida em Aljustrel, como os seus primos, a 28 de março de 1907, batizada dois dias depois, Lúcia recebe a Primeira Comunhão em 30 de maio de 1913, por mediação do Pe. Cruz – de acordo com a documentação conhecida –, impressionado com os seus conhecimentos catequéticos.

Nas suas Memórias, Lúcia relata que em 1915 teve pela primeira vez visões de uma espécie de nuvem, com forma humana, por três ocasiões diferentes, quando estava com outras amigas. É no ano seguinte, 1916, que as três crianças recebem as manifestações do Anjo de Portugal, como se apresentou.

A partir da primeira Aparição de Nossa Senhora, em 13 de maio de 1917, a vida de Lúcia e dos seus primos transformou-se completamente: não só porque acolhem os pedidos da Senhora, recitando diariamente o terço, fazendo sacrifícios, alguns dolorosos, pelos pecadores e comparecendo durante seis meses, ao dia 13, naquele local, mas sobretudo porque passam a ser constantemente interrogados sobre o que viram e acusados de mentirem e de inventarem tudo.

Início da vida retirada do mundo

Recolhida no Asilo de Vilar, no Porto, depois da última Aparição (ocorrida a 13 de outubro de 1917), a conselho do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, Lúcia de Jesus começa uma vida retirada do mundo que a irá levar ao postulantado das Irmãs Doroteias, em Espanha, aos 15 anos de idade, e, mais tarde, à clausura do Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde permanecerá desde 17 de maio de 1946 até à sua morte, em 13 de fevereiro de 2005.

Ainda em Vilar escreve, em 5 de janeiro de 1922, o primeiro relato das Aparições e dois anos e meio depois, a 8 de julho de 1924, responde, no Porto, ao interrogatório oficial da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima, nomeada por D. José Alves Correia da Silva.

Na sequência do trabalho da Comissão, o bispo de Leiria publicou, a 13 de outubro de 1930, 13 anos depois das Aparições, uma Carta Pastoral sobre o culto de Nossa Senhora da Fátima, considerando «dignas de crédito as visões das crianças na Cova da Iria, freguesia de Fátima […], nos dias 13 de maio a outubro de 1917».

Divulgadora da Mensagem de Fátima

Escolhida desde o início para ser a grande divulgadora da Mensagem de Fátima e da devoção ao Imaculado Coração de Maria, Lúcia deixou numerosos escritos, de que se salientam as Memórias, divididas em seis partes, escritas a pedido quer do bispo de Leiria quer, mais tarde, do reitor do Santuário, Mons. Luciano Guerra (as duas últimas).

As seis partes das Memórias, redigidas entre dezembro de 1935 e março de 1992, incluem o relato das Aparições, tanto do Anjo de Portugal como da Senhora do Rosário (2.ª e 4.ª), e evocações de Jacinta (1.ª), de Francisco (4.ª), do pai (5.ª) e da mãe (6.ª).

A 3.ª Memória, datada de agosto de 1941, integra as duas primeiras de três partes do conteúdo reservado da Mensagem de Fátima que passou a ser conhecido como o Segredo de Fátima: a visão do Inferno e o pedido de devoção ao Imaculado Coração de Maria e de consagração da Rússia.

 

Terceira parte do Segredo arquivada no Vaticano

A terceira e última parte do Segredo é incluída na 4.ª Memória e refere-se à luta dos «sistemas ateus contra a Igreja e os cristãos e descreve o sofrimento imane das testemunhas da fé do último século do segundo milénio. É uma Via-Sacra sem fim, guiada pelos Papas do século XX», conforme anunciou em Fátima, em 13 de maio de 2000, o cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano.

Os Três Pastorinhos, apesar de inúmeras ameaças, guardaram inviolavelmente este segredo, o qual só mais tarde foi escrito pela Irmã Lúcia, em obediência ao pedido explícito do bispo da diocese de Leiria, sendo posteriormente enviado à Santa Sé, onde ficou arquivado.

Em carta dirigida ao Papa Pio XII, em 2 de dezembro de 1940, Lúcia pede insistentemente que seja atendido o pedido de Nossa Senhora, reafirmado em Aparições posteriores em Espanha, para que fosse proclamada a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a consagração do mundo, e em especial da Rússia, ao Coração de Maria.

Consagração que Pio XII acabou por fazer, a 31 de outubro de 1942, em Roma, renovando-a no mesmo local a 8 de dezembro.

Paulo VI (21 de novembro de 1964), João Paulo II (7 de junho de 1981, 8 de Dezembro de 1981, 13 de maio de 1982, 16 de Outubro de 1983, 25 de março de 1984 – em comunhão com todos os bispos do mundo – e 13 de maio de 1991) e Francisco (13 de Outubro de 2013) também renovaram a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria.

 

Encontros pessoais com Papas e um futuro Papa

Lúcia acabou por encontrar-se pessoalmente com quase todos os Papas que cruzaram a sua vida desde as Aparições, exceto com Bento XV e Pio XII.

O primeiro contacto direto com um Sumo Pontífice ocorreu em 1967, quando se deslocou a Fátima para se encontrar com Paulo VI, a pedido do próprio Papa, durante as celebrações do Cinquentenário das Aparições.

A imagem do sucessor de Pedro ao lado da única vidente de Fátima viva correu mundo e constituiu, para muitos, a primeira vez que viam Lúcia.

Com João Paulo I não houve um contacto direto durante o seu curto pontificado, mas a Irmã Lúcia recebera o então cardeal Albino Luciani, futuro Papa, no Carmelo de Coimbra, depois de uma visita do Patriarca de Veneza a Fátima. A conversa foi prolongada, mas não há registo dos assuntos abordados.

Os contactos mais frequentes foram com João Paulo II, depois do atentado em Roma, durante as visitas que o Papa efetuou a Fátima (em 1982, 1991 e 2000).

A última visita assumiu um caráter especial para a Irmã Lúcia, pois ocorreu a propósito da beatificação dos seus primos Francisco e Jacinta, os outros dois pastorinhos de Fátima, e foi a altura escolhida pelo Papa para anunciar a terceira e última parte do Segredo de Fátima, referente, na interpretação do Pontífice, à predição do atentado que sofrera em 1981.

 

Processo de beatificação antecipado

A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, nome que adotou quando professou os seus votos perpétuos, em 31 de maio de 1949, morreu a 13 de fevereiro de 2005 e foi sepultada no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, sendo os seus restos mortais trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima a 19 de fevereiro de 2006, ficando ao lado de sua prima Jacinta.

Três anos após a morte de Lúcia, em 3 de fevereiro de 2008, o cardeal José Saraiva Martins, então Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, anuncia, no Carmelo de Coimbra, que o Papa Bento XVI tinha acedido aos pedidos do bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, e de numerosos fiéis em todo o mundo, para que fosse dispensado o período canónico de espera de cinco anos para abertura do processo de beatificação da vidente, autorizando a sua antecipação.

A fase diocesana do processo foi aberta por D. Albino Cleto, em 30 de abril de 2008, e a sua conclusão foi anunciada em 13 de janeiro de 2017. A sessão solene de encerramento do processo decorreu a 13 de fevereiro de 2017, nove anos depois do seu início e 12 anos após a morte da vidente.

Um longo período que se justificou, segundo a Ir.ª Ângela Coelho, vice-postuladora da Causa de Canonização da Irmã Lúcia, pela necessidade de analisar a numerosa documentação sobre a vidente, grande parte da qual existente no Vaticano, e de recolher os testemunhos acerca da sua fama de santidade e das suas virtudes heróicas, culminando num volumoso processo de 15 mil páginas que passa, agora, para a fase romana de análise, sob competência da Congregação para as Causas dos Santos.

 

Beatos Francisco e Jacinta, em breve S. Francisco Marto e Santa Jacinta Marto

Das curtas vidas de Francisco e de Jacinta Marto, «as duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas», como João Paulo II lhes chamou, há poucos registos biográficos. A mais importante fonte para o conhecimento sobre eles é constituída pelas Memórias de sua prima.

Nascidos ambos em Aljustrel, com menos de dois anos de intervalo, morrem pouco tempo depois das Aparições, tal como Nossa Senhora lhes tinha anunciado: «a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu [Lúcia] ficas cá mais algum tempo» (13 de junho de 1917).

Vidas breves, mas suficientes para que a Igreja Católica reconhecesse, pela primeira vez na sua história de 2000 anos, a “heroicidade das virtudes e a maturidade de fé de crianças não-mártires”, por decreto de João Paulo II, de 13 de maio de 1989, que abriu o precedente para o reconhecimento da sua santidade.

 

Francisco Marto

Francisco Marto, cuja iconografia o apresenta de carapuço na cabeça e jaleca curta, com o cajado e o saco do farnel ao pescoço, nasceu em 11 de junho de 1908 e foi batizado em 20 de junho na Igreja Paroquial de Fátima.

Com apenas 8 anos de idade, começou, com a sua irmã Jacinta, a pastorear o rebanho dos seus pais pela zona da Cova da Iria, local onde, juntamente com a prima Lúcia, viriam a testemunhar as Aparições, durante as quais podia apenas ver, sem ouvir ou falar.

Levado pelo desejo íntimo de consolar o coração de Jesus, pois – dizia – queria dar alegria a um Deus que estava triste com os agravos ao Seu coração, Francisco viveu intensamente a oração contemplativa. Para isso, passava horas seguidas em oração em frente ao sacrário, na Igreja Paroquial de Fátima.

Essa vontade de desagravar o coração de Jesus e de se dedicar inteiramente à oração levou-o a desistir de ir à escola, apesar de, nas Aparições, Nossa Senhora de Fátima lhes ter pedido para que aprendessem a ler e a escrever.

A 18 de outubro de 1918, pouco mais de um ano depois da última Aparição, Francisco adoece, vítima da epidemia da gripe pneumónica que assolou o país. Também conhecida por gripe espanhola, a doença chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.

A 2 de abril do ano seguinte, confessa-se e recebe a comunhão pela última vez «com uma grande lucidez e piedade», como escreve o pároco de Fátima no Livro de Óbitos, ao registar a sua morte, em 4 de abril, acrescentando: «E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho».

Foi sepultado no cemitério de Fátima, de onde os seus restos mortais foram exumados, em 17 de fevereiro de 1952, e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em 13 de março de 1952, repousando no braço direito do transepto.

 

Jacinta Marto

Tímida, mas serena, Jacinta Marto teve uma vida ainda mais curta do que a do seu irmão Francisco.

Nascida a 11 de março de 1910, também em Aljustrel, não chega a atingir os 10 anos de idade, ao falecer em Lisboa, igualmente vítima da pneumónica, em 20 de fevereiro de 1920, longe da família, “mas consolada com a certeza de ir para o Céu” (Irmã Lúcia).

Nas Aparições, Jacinta via e ouvia, mas não falava. Segundo a prima Lúcia, Jacinta afligia-se com o sofrimento dos pecadores de que se apercebera na visão do Inferno (Aparição de 13 de julho de 1917) e o seu coração encheu-se de compaixão por eles e de devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Essa profunda devoção levou-a à oração intensa e a suportar sacrifícios pelos pecadores, relembrou ainda Lúcia nos seus escritos, nos quais recorda que a prima sofria com o afastamento da família, com saudades da mãe, chorando com fome nos períodos em que fazia jejum por compaixão pelos pecadores.

Jacinta disse ter tido várias aparições de Nossa Senhora durante a sua doença, em casa, na Igreja de Fátima, no orfanato onde esteve, em Lisboa, antes de ser internada e, depois, no Hospital de D. Estefânia.

Tal como o irmão, adoece com a pneumónica (gripe espanhola) em outubro de 1918, tendo sido internada pela primeira vez no hospital de Vila Nova de Ourém, de 1 de julho a 31 de agosto de 1919, já depois da morte de Francisco.

No ano seguinte, ano da sua morte, volta a ser internada, desta vez no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, a 2 de fevereiro. Foi operada, mas acabou por falecer em 20 de fevereiro, «com a maior tranquilidade, sem ter comungado», apesar de ter pedido insistentemente que lhe dessem a comunhão, pois, dizia, iria morrer em breve, segundo o relato do médico que a acompanhou, Eurico Lisboa.

O seu corpo foi levado para Vila Nova de Ourém, em cujo cemitério foi sepultado em 24 de fevereiro, no jazigo dos condes de Alvaiázere.

A 30 de abril de 1951, os seus restos mortais são identificados e trasladados para o braço esquerdo do transepto da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima no dia seguinte, 1 de maio de 1951.

 

O Papa vai canonizar Francisco e Jacinta Marto no próximo dia 13 de maio em Fátima.

Este processo iniciado pelo então bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva,  a 30 de abril de 1952, um ano depois da trasladação dos restos mortais de Jacinta para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima,  tem agora o desfecho aguardado 65 anos depois.

Os sinos do Santuário de Fátima tocaram a repique para celebrar a notícia.

O reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, juntou-se pouco depois aos peregrinos e visitantes, na Capelinha das Aparições, para um «momento singelo de oração».

«Alegramo-nos com esta notícia e damos graças a Deus por estes exemplos de santidade que nos são oferecidos», disse.

«Pedimos também neste lugar tão especial, a Capelinha das Aparições, a ajuda de Nossa Senhora para sabermos imitar o exemplo dos futuros santos Francisco e Jacinta Marto», acrescentou ainda o sacerdote, antes de se cantar o hino dos pastorinhos no Recinto de Oração.

A canonização acontece após a aprovação, a 23 de março, de um milagre atribuído a Francisco e Jacinta; é a última etapa do processo, iniciado há 65 anos.

Pouco depois, a Conferência Episcopal Portuguesa manifestou a «imensa alegria» com que acolheu o anúncio que Francisco e Jacinta serão feitos Santos em Fátima.

«O Centenário das Aparições, a Canonização de Francisco e Jacinta Marto e a presença do Santo Padre entre nós são motivos maiores para estarmos todos, peregrinos na esperança e na paz, em sintonia de oração e de acolhimento do dom da santidade», reiterou o Pe. Manuel Barbosa Porta-voz da CEP, que referiu ainda que «nunca é demais insistir na vocação universal à santidade».

Na nota divulgada esta manhã foi ainda expressado o desejo «Que o exemplo de vida de Francisco e Jacinta Marto, agora apresentados a toda a Igreja como modelos e intercessores da santidade, contribua para intensificarmos a vivência da mensagem que Nossa Senhora do Rosário nos ofereceu em Fátima».Pouco depois, a Conferência Episcopal Portuguesa manifestou a «imensa alegria» ao acolher o anúncio que Francisco e Jacinta serão feitos Santos em Fátima.

 

Os retratos oficiais dos mais jovens santos não-mártires da Igreja Católica, Francisco e Jacinta Marto, hoje apresentados em Fátima, têm por base as fotografias utilizadas na beatificação em 2000, com uma formulação plástica que mostra a psicologia dos dois santos, nas palavras da Postulação de Francisco e Jacinta Marto.

“Jacinta olha de frente para o observador, em atitude de interpelação; Francisco ergue os olhos ao alto, apontando para uma atitude eminentemente contemplativa”, refere a nota da Postulação sobre as imagens, encomendadas à pintora Sílvia Patrício, e que vão estar colocadas na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima para a cerimónia de canonização.

Em relação à fotografia de 1917 que está na base das duas imagens de São Francisco Marto e de Santa Jacinta Marto, as vestes apresentam-se coloridas, a partir de uma pesquisa etnográfica feita pela autora.

Na fachada da Basílica, a colocação dos dois videntes é também diferente: primeiro surge Jacinta Marto, “como primeiro anunciadora dos acontecimentos de Fátima”.

Com o terço nas mãos e a candeia como atributos mais claros destes santos, a autora das imagens incluiu em cada auréola (que representa a santidade), em formato de peça de ourivesaria símbolos diferenciados: na de Francisco a silhueta do Anjo de Fátima e as espécies eucarísticas, enquanto a de Jacinta mostra as figuras do Papa e da Virgem Maria, representada com o seu Coração Imaculado.

Sílvia Patrício, 43 anos, nascida em Vincennes, França, é uma artista plástica, licenciada pela Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha.

A sua primeira exposição individual, “O outro lado”, data de 1997 e desde então tem apresentado várias obras, sobretudo em Leiria, mas também em locais como Salamanca, Paris (Casa de Portugal), Coimbra, Porto e Cascais.

Por Santuário de Fátima

Constituído por três partes, das quais as duas primeiras há muito reveladas, o Segredo de Fátima é formado por revelações feitas por Nossa Senhora aos três pastorinhos, em julho de 1917, sobre as quais lhes pediu reserva, indicando que não fossem transmitidas a ninguém.

«Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo», foi a instrução dada, segundo Lúcia.

Recorde-se que os três pastorinhos percecionavam o conteúdo das Aparições de maneira diferente: apenas Lúcia interagia, vendo, ouvindo e falando; Jacinta via e ouvia, mas não falava, enquanto Francisco apenas via. Daí a autorização para que se contasse a Francisco.

E o Segredo foi guardado, apesar das numerosas pressões e ameaças.

Lúcia acedeu a escrever sobre as Aparições, mas manteve reservado o conteúdo do Segredo, só o passando ao papel depois, de – explicou – ter recebido autorização «do Céu», na sua expressão.

O segredo e as especulações

O facto de se tratar de “segredo” alimentou durante gerações a ideia de que o conteúdo das revelações, sobretudo a terceira parte, se referia a algo relacionado com o fim do mundo, por entre mitos de que os Papas teriam querido manter o documento em segredo por causa das suas “terríveis revelações”.

Nada mais afastado da realidade, como escreveu o então cardeal Joseph Ratzinger, na altura Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e hoje Papa emérito Bento XVI, no comentário teológico à Mensagem de Fátima: «Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da história deve ficar desiludido. Fátima não oferece tais satisfações à nossa curiosidade, como, aliás, a fé cristã em geral, que não pretende nem pode ser alimento para a nossa curiosidade».

«O que permanece — dissemo-lo logo ao início das nossas reflexões sobre o texto do “segredo” — é a exortação à oração como caminho para a “salvação das almas”, e no mesmo sentido o apelo à penitência e à conversão», acentua ainda.

A terceira parte e última parte do Segredo de Fátima foi revelada a 13 de maio de 2000 pelo cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano, a pedido de João Paulo II, durante as cerimónias de beatificação de Francisco e Jacinta Marto, em Fátima.

Primeira parte

A primeira parte do Segredo de Fátima refere-se à visão do inferno que foi proporcionada, num «instante terrível», aos três Pastorinhos.

«Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gemidos e gritos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. (…) Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição)! Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor», escreveu Lúcia na sua Terceira Memória (1941).

Segunda parte

A segunda parte consta da devoção e da consagração ao Imaculado Coração de Maria (a que se associa a comunhão reparadora nos primeiros sábados), com a concreta referência à consagração da Rússia, como meio de evitar uma nova guerra, ainda pior que a que então grassava na Europa (Primeira Grande Guerra, 1914-1918).

«Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz», revela Lúcia, na mesma Memória.

Terceira parte

A terceira e última parte apresenta a visão que os Pastorinhos tiveram da Igreja peregrina e mártir: um cortejo de sacerdotes, religiosos e bispos, com o Papa à frente, a subir uma montanha, atravessando uma cidade meio em ruínas e pejada de cadáveres, vindo a sucumbir, no alto do monte, aos pés de uma cruz, morto por tiros e setas disparados por soldados (cf. Quarta Memória, 1944).

«E vimos n’uma luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se veem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições (…)», segundo o relato na mesma Memória.

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Em conversa em abril de 2000 no Carmelo de Coimbra com o cardeal Tarcisio Bertone, então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, a Irmã Lúcia concordou que a terceira parte do Segredo consiste numa visão profética, sobretudo sobre a luta do comunismo ateu contra a Igreja e os cristãos, na qual se descreve o sofrimento das vítimas da fé no século XX.

«É uma Via Sacra sem fim, guiada pelos Papas do século vinte», sublinha o cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano, ao anunciar em Fátima a terceira parte do Segredo, em 13 de maio de 2000.

Confirma também a interpretação de que o «bispo vestido de branco» é o Papa e concorda com a leitura de João Paulo II, que, à luz do texto da terceira parte do Segredo e na sequência do atentado de 13 de maio de 1981, em Roma, atribuiu a «uma mão materna» o facto de a trajetória da bala ter sido guiada de modo a permitir que «o Papa agonizante» se detivesse «no limiar da morte».

No comentário teológico, o então cardeal Joseph Ratzinger sublinha que a palavra-chave desta terceira parte do Segredo é o tríplice grito do anjo com a espada de fogo na mão esquerda: «Penitência, penitência, penitência!».

Ou seja, o apelo ao arrependimento e à conversão, na certeza de que o bem triunfará sobre o mal, como escreve: «a visão da terceira parte do “segredo”, tão angustiante ao início, termina numa imagem de esperança: nenhum sofrimento é vão, e precisamente uma Igreja sofredora, uma Igreja dos mártires torna-se sinal indicador para o homem na sua busca de Deus».

«Do sofrimento das testemunhas deriva uma força de purificação e renovamento, porque é a atualização do próprio sofrimento de Cristo e transmite ao tempo presente a sua eficácia salvífica», assinala.

Por isso, recorda a promessa deixada por Cristo no Evangelho de João: «No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16,33).

«A mensagem de Fátima convida a confiar nesta promessa», conclui.

Por Santuário de Fátima

A relação dos Papas com Fátima tem ganho uma visibilidade maior desde as viagens pontifícias realizadas por Paulo VI e, sobretudo, por João Paulo II. Mas já antes o bispo de Roma manifestava o interesse pelo acontecimento e, sobretudo, pela mensagem deixada pela Virgem Maria na Cova da Iria.

Pio XI

A primeira referência conhecida data de 9 de janeiro de 1929, dia em que Pio XI recebeu em audiência os alunos do Pontifício Colégio Português de Roma. No final do encontro, leu em português a invocação de uma pagela (“Madre Clementíssima – Salvai Portugal”), referindo ter recebido as estampas naquele mesmo dia, vindas de Portugal, distribuindo-as pelos alunos.

As estampas, com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, tinham sido impressas pelo Apostolado da Oração e exibiam o imprimatur do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, datado de 17 de maio de 1926.

Ainda em 1929, em 6 de dezembro, o Papa Pio XI benzeu uma imagem de Nossa Senhora de Fátima destinada àquele Colégio.

A imagem, assinale-se, tinha sido esculpida pelo mesmo autor daquela que se encontra na Capelinha das Aparições, José Ferreira Thedim.

Em 1 de outubro de 1930, o Papa Pio XI concede indulgências plenárias aos peregrinos de Nossa Senhora de Fátima.

De acordo com o jornal Voz da Fátima de 13 de novembro desse ano, é concedida uma indulgência «de sete anos e sete quarentenas a todo o fiel cristão – contrito de suas faltas – todas as vezes que visitar o Santuário e aí rezar segundo as intenções do Sumo Pontífice».

É ainda atribuída uma indulgência plenária – uma vez por mês – aos peregrinos que em grupo se desloquem ao Santuário e aí rezem igualmente pelas intenções do Santo Padre.

Sublinhe-se que estes três atos aconteceram antes da publicação da Carta Pastoral do bispo de Leiria, na qual se consideram «dignas de crédito» as Aparições de Nossa Senhora relatadas pelos três Pastorinhos, que só veio a ocorrer em 13 de outubro de 1930.

Do seu antecessor, Bento XV, Papa na época das Aparições, não há memória de manifestações oficiais relativamente a Fátima.

Pio XII

A primeira posição oficial pública do Vaticano sobre Fátima acontece com Pio XII, em 31 de outubro de 1942, 25 anos depois das Aparições: nessa data, em plena II Guerra Mundial, o Papa consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria, acedendo aos pedidos de Nossa Senhora transmitidos aos três Pastorinhos de Fátima.

Quatro anos depois, em 13 de maio de 1946, envia o cardeal Aloisi Masella a Fátima para coroar a imagem de Nossa Senhora. Nessas duas ocasiões, Pio XII dirige mensagens, através da rádio, em português, aos peregrinos que acorreram à «montanha santa de Fátima» para depositar aos pés da Virgem Padroeira «o tributo filial» do seu amor: «Rainha do Santíssimo Rosário, Refúgio do género humano, nós confiamos, entregamos, consagramos, não só a Santa Igreja, Corpo místico do Vosso Jesus, mas também todo o mundo», referiu.

João XXIII

Quanto a João XXIII, regista-se a sua presença em Fátima, ainda enquanto Patriarca de Veneza, antes de suceder a Pio XII, em 13 de maio de 1956, agradecendo, mais tarde, à Virgem o convite para o que designou de «festim de misericórdia e de amor».

Após a morte do bom Papa João, como ficou conhecido, o bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio, em junho de 1963, solicitou ao Vaticano uma “relíquia-recordação” do Sumo Pontífice que convocou o Concílio Vaticano II.

A Secretaria de Estado do Vaticano acedeu ao pedido e enviou, em 6 de julho, a cruz peitoral de João XXIII. Segundo a Voz da Fátima de 13 de setembro de 1963, tratava-se de uma cruz de ouro que o então bispo Angelo Roncalli comprara quando desempenhara funções de Núncio no Oriente. A cruz está guardada no Museu do Santuário de Fátima.

Paulo VI

papa2017_PapaPauloVI.jpgO primeiro Papa a visitar Fátima foi Paulo VI, em 13 de maio de 1967, para assinalar os 50 anos das Aparições de Fátima e, simultaneamente, o 25.º aniversário da consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria.

Paulo VI veio, como «peregrino humilde e confiante», apenas a Fátima, a convite dos bispos portugueses, uma solução diplomática para evitar que uma sua visita a Portugal significasse o reconhecimento do regime do Estado Novo.

Nessa altura, existia alguma tensão entre Lisboa e o Vaticano, depois de o Papa ter participado, em dezembro de 1964, no Congresso Eucarístico Internacional em Bombaim, integrado numa peregrinação à Índia, apenas três anos depois de o exército indiano ter invadido e retomado Goa, Damão e Diu.

Na visita, a que se associaram em Fátima o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, e o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, foi possível ver em público, pela primeira vez desde a sua entrada na clausura do Carmelo de Coimbra, a Irmã Lúcia de Jesus.

 João Paulo I

Dos 33 dias de papado de João Paulo I não há registo de qualquer posição relativamente a Fátima, mas enquanto Patriarca de Veneza, o cardeal Albino Luciani esteve em Fátima em 10 de julho de 1977, cerca de um ano antes de ter sido eleito Papa (26 de agosto de 1978), presidindo a uma peregrinação de cerca de 50 italianos da região veneziana.

Segundo o relato do jornal Voz da Fátima, o cardeal recordou a presença anterior de João XXIII em Fátima, também enquanto Patriarca de Veneza, e, na breve saudação aos peregrinos, apelou ao cumprimento da Mensagem de Fátima – penitência e oração, especialmente a recitação do terço – e à observância do Evangelho.

No dia seguinte, o futuro João Paulo I teve um encontro no Carmelo de Coimbra com a Irmã Lúcia.

João Paulo II

É com João Paulo II, em 1981, que se desenvolvem e intensificam as relações de proximidade com a Fátima. Logo depois do atentado de que foi vítima, na Praça de S. Pedro, em Roma, em 13 de maio de 1981, o Papa atribuiu à proteção da Virgem de Fátima o facto de ter sobrevivido aos tiros disparados pelo turco Ali Agca.

D0000400.jpgUm ano depois, desloca-se a Portugal, tendo Fátima como alvo principal da visita, com o objetivo de «agradecer à Divina Providência neste lugar que a mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular».

Na noite de 12 de maio, volta a ser alvo de um atentado, quando o ex-sacerdote integrista Juan Fernandez Khron tenta atingir o Papa com uma faca, não o conseguindo por intervenção de um dos polícias portugueses que escoltava o Sumo Pontífice.

Dois anos depois, em 1984, João Paulo II ofereceu ao Santuário de Fátima a bala que o atingiu no abdómen no atentado de Roma, projétil que em 1989 foi incrustado na coroa da imagem de Nossa Senhora.

A segunda viagem do Papa polaco a Portugal, em 1991, incluiu a participação na Vigília de Oração, em 12 de maio, e a celebração da Eucaristia no dia seguinte.

Na homilia, sublinhou a importância da Mensagem de Fátima para os tempos de hoje, caracterizando-a como uma espécie de eco das palavras de Jesus a Sua Mãe, no Gólgota, quando lhe entregou o discípulo amado. «Aqui Ela teve de os acolher a todos. Todos nós, homens deste século e da sua difícil e dramática história».

A terceira e última deslocação de João Paulo II, já com a saúde debilitada, ocorreu em 13 de maio de 2000, com o objetivo de presidir à celebração de beatificação de Francisco e Jacinta Marto.

Esta foi uma viagem feita por insistência do Papa, que obrigou os serviços do Vaticano a desmarcarem a celebração inicialmente prevista para o dia 9 de abril, na Praça de São Pedro, em Roma.

Outro sinal evidente da relação muito próxima que manteve sempre com Fátima foi a revelação da terceira parte do Segredo de Fátima, feita em 13 de maio pelo Secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Angelo Sodano.

O Segredo de Fátima é tido como núcleo fundamental da Mensagem de Fátima e refere-se às visões e palavras testemunhadas pelos Pastorinhos na aparição de Nossa Senhora a 13 de julho de 1917. O seu conteúdo foi redigido por Lúcia na década de 40. As duas primeiras partes (a visão do inferno e a devoção ao Imaculado Coração de Maria) foram dadas a conhecer em 1941; a terceira (a visão da Igreja peregrina e mártir e da cidade em ruínas), redigida em 1944, permaneceu sob reserva e foi revelada publicamente em Fátima no ano 2000.

A terceira parte do Segredo inclui precisamente a referência a um atentado contra a figura do Papa, tendo João Paulo II ligado essa revelação ao acontecimento de 13 de maio de 1981, em Roma, ao qual sobreviveu por – disse-o várias vezes – «uma mão materna» ter desviado a trajetória da bala.

Bento XVI

D0056143.jpgQuando Bento XVI visitou o Santuário de Fátima, em 12 de maio de 2010, para assinalar o décimo aniversário da beatificação de Francisco e Jacinta Marto, o recinto não lhe era de todo desconhecido e muito menos o conteúdo da Mensagem de Fátima.

Já tinha estado em Fátima, como cardeal Joseph Ratzinger, a presidir às celebrações de 13 de outubro de 1996, mas a sua ligação é anterior: como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, tinha estudado as Aparições e a Mensagem de Nossa Senhora.

Em 13 de maio de 2007 enviou a Fátima, como Legado Pontifício, o cardeal Angelo Sodano, ex-Secretário de Estado, para presidir à abertura das celebrações do 90.º aniversário das Aparições, dirigindo uma mensagem em que sublinhava o valor da oração do Rosário, como Nossa Senhora tanto pedira aos três Pastorinhos.

Na noite de 12 de maio de 2010, Bento XVI esteve presente na Cova da Iria na bênção das velas e na oração do Santo Rosário e presidiu à Eucaristia do dia 13, durante a qual sublinhou que o exemplo de vida de Lúcia, Francisco e Jacinta «irradiou e se multiplicou em grupos sem conta» por todo o mundo.

«Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições [2017] apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria, para glória da Santíssima Trindade», apelou ainda.

Francisco

Francisco será assim o quarto Papa a visitar Fátima, e a sua ligação ao local das Aparições começa desde logo no simbolismo do dia da sua eleição, em março de 2013: o dia 13, associado às Aparições. Uma ligação que se torna mais efetiva e visível dois meses depois, quando os bispos portugueses, a seu pedido, consagram o seu pontificado a Nossa Senhora, durante as celebrações de 13 de maio de 2013.

E, logo a seguir, em outubro (mês fortemente ligado a Fátima), igualmente a seu pedido, a Imagem de Nossa Senhora que se venera na Capelinha das Aparições esteve em Roma para o encerramento da Jornada Mariana promovida pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização no âmbito da celebração do Ano da Fé.

O desejo de ir a Fátima («tengo ganas de ir a Fátima») foi transmitido aos bispos portugueses a 7 de setembro de 2016, durante a visita ad limina.

A visita ad limina, versão abreviada de ad limina Apostolorum (aos túmulos dos Apóstolos, em Roma), consiste na obrigação de os bispos diocesanos de um país se deslocarem a Roma, de cinco em cinco anos, para apresentarem um relatório sobre a situação pastoral nas suas dioceses e refletirem com o Papa, ouvindo os seus conselhos e recomendações, bem como com outras instâncias do Vaticano.

A chegada de Francisco ao Santuário de Fátima, no dia 12 de maio, será também a concretização da intenção que tinha manifestado, em privado, a D. António Marto, bispo da diocese de Leiria-Fátima, em abril de 2015: se Deus lhe desse «vida e saúde», estaria na Cova da Iria para celebrar o Centenário das Aparições.

Virgem Santíssima,
transbordante da mais pura alegria
pela presença em vós do Verbo Divino Encarnado,
fazei com que, imitando na terra a pureza de vossa Anunciação,
a caridade de vossa Visitação a Santa Izabel,
amor terno a Jesus recém-nascido no presépio,
a humilde obediência com a qual vos apresentastes
no templo de Jerusalém,
possamos merecer também, como vós,
pela solicitude constante em buscarmos a Jesus durante a vida, encontrá-lo definitivamente no templo de Sua Glória Eterna.
Amém.

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