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Já entramos como Igreja nesse tempo de especial graça, em preparação para a festa da Páscoa do Senhor Jesus, que é a Quaresma. A liturgia da Igreja é especialmente rica nesse tempo e conhecê-la um pouco melhor é importante para que a vivamos com maiores frutos espirituais.

O central na Quaresma, como em todo tempo da vida cristã, é a Missa, onde Jesus se faz uma e outra vez presente para nós. Como nos lembra o Concílio Vaticano II “a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força”. Uma boa participação na missa é o primeiro grande passo para viver melhor a Quaresma.

Vamos então olhar para o que acontece na Missa durante esse tempo. Primeiro vejamos alguns aspectos gerais, comuns a todo o tempo da Quaresma e depois passemos rapidamente a sequência das leituras dos Domingos. Tudo isso nos ajudará a ter uma visão mais ampla sobre esse tempo.

 

A liturgia em geral se despoja de alguns elementos para tomar um caráter mais austero, em maior sintonia com esse tempo de conversão. A cor roxa nos lembra o convite a contrição e a penitência, traços espirituais que devem nos acompanhar durante esses 40 dias porque sabemos que somos pó e que ao pó voltaremos (Como escutamos na quarta-feira ao receber as cinzas), ou seja, somos criaturas necessitadas de Deus, e não autossuficientes como a soberba do nosso coração muitas vezes quer nos fazer acreditar.

Nesse tempo se omite o canto do Glória nos Domingos e o Aleluia que se canta para aclamar o Evangelho. Também são sinais visíveis de um convite a maior recolhimento e reflexão sobre a necessidade que temos de Deus.

Aproveitar bem essa experiência de austeridade na liturgia pode fazer crescer em nós o desejo de retornar ao abraço amoroso de Deus. A liturgia mais simples revela a experiência de que o coração deseja mais alegria, mais felicidade, que ele tem saudade dos dias em que festejávamos plenamente, coisa que faremos novamente com imenso júbilo no Domingo de Páscoa, onde os sinos soarão com força enquanto cantamos o Glória.

Existem algumas solenidades durante o período da quaresma que modificam um pouco a liturgia, porém não devem ser entendidas como algo aparte desse tempo, mas como solenidades inseridas nesse contexto. Celebramos São José, no dia 19 e a Anunciação do Senhor, no dia 25 de Março. Apesar do caráter mais festivo, não se deve perder o contexto em que estamos, preparando nossos corações para a Páscoa de Jesus.

Depois de ver como funciona a dinâmica quaresmal em geral, olhemos com um pouco mais de calma o que nos dirá a Palavra de Deus nos Domingos de Quaresma. A proposta não é adiantar o que nos dirá Deus, porque a Palavra de Deus é viva e fala ao coração de cada um de maneira pessoal, mas preparar melhor o terreno do nosso interior para acolher essa semente que Ele quer depositar, sempre por meio da Igreja.

As primeiras leituras da Missa nos contarão a história da Salvação, que depois voltaremos a escutar na Vigília Pascoal. Os Evangelhos nos ajudam a refletir sobre a vida cristã.

As segundas leituras estão pensadas como um complemento dos grandes temas da História da Salvação e da preparação para a Páscoa. Os Salmos desse tempo são salmos penitenciais como o salmo 50 e salmos de súplica que nos lembram da necessidade que temos da misericórdia de Deus para uma vida santa.

Sabemos que nesse tempo de quaresma somos convidados a uma maior conversão e a Igreja nos propõe o Jejum a oração e a caridade como meios para isso. Essas práticas, no entanto, não podem ser ritos exteriores, coisas que fazemos porque “é o que se faz” normalmente. A Igreja, com sua Liturgia, nos presenteia a Palavra de Deus e a Ele mesmo na Eucaristia, para que possamos viver mais autenticamente esses bons costumes.

Nos aproximamos ao primeiro Domingo da Quaresma e agora, com o “programa” em mãos, sintonizemos nosso coração com o Espírito de Deus, para que nesse tempo cresçamos em santidade e estejamos, como nos pede o Santo Padre em sua mensagem para a Quaresma, prontos e solícitos para testemunhar a mensagem evangélica.

Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, “sinal sacramental da nossa conversão”, que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: “Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos” (24, 12).

Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

 

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a “encantadores de serpentes”, ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles “charlatães” que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

 

Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, “raiz de todos os males” (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos. Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas “certezas”: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.

 

Que fazer?

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: “Isto é o que vos convém” (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

 

O fogo da Páscoa

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar.

Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa “24 horas para o Senhor”, que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando -se nestas palavras do Salmo 130: “Em Ti, encontramos o perdão” (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.

Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do “lume novo”, pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. “A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito”, para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.

Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.

Vaticano, 1 de Novembro de 2017
Solenidade de Todos os Santos

Francisco

Por Redação A12 e Vatican News
Adaptado por Agência Minha Paróquia