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Artigos › 12/04/2018

O dom da vocação presbiteral

O papa Francisco recebeu em audiência, no dia 21 de outubro, a comunidade do Colégio Pio Brasileiro. Dirigindo-se aos presbíteros presentes disse que “o povo de Deus gosta e precisa ver que seus padres se amam e vivem como irmãos. Isto é ainda mais verdadeiro pensando no Brasil e nos desafios tanto de âmbito religioso como no social que lhes esperam ao retorno. De fato, neste momento difícil da sua história nacional, em que tantas pessoas parecem ter perdido a esperança num futuro melhor por causa dos enormes problemas sociais e de uma escandalosa corrupção, o Brasil precisa que os seus padres sejam um sinal de esperança. Os brasileiros precisam ver um clero unido, fraterno e solidário, em que os padres se unem para enfrentar juntos os obstáculos, sem ceder à tentação do protagonismo ou do carreirismo. Estejam atentos com isso! Tenho a certeza de que o Brasil vai superar a sua crise, e confio que nisso vocês serão protagonistas”.

O Santo Padre exorta os pastores do Povo de Deus a assumirem os desafios da evangelização, tanto em âmbito religioso como no social. Isso pressupõe homens tocados pela experiência do encontro com o Crucificado-Ressuscitado; ungidos para anunciar aos pobres o ano da graça do Senhor (Lc 4, 18-19.21); sabedores de ser profundamente amados por Deus e acompanhados por Ele; ensinando para as suas comunidades o caminho de saída de si mesmos para ir ao encontro de Cristo e dos irmãos; oferecendo a própria vida com generosidade e dedicação pelo anúncio do Evangelho; animados por uma sadia inquietude que os mantém a caminho; atentos para que o hábito e a mediocridade não esfriem o dom recebido do Senhor; sustentados pela força do Evangelho e da oração; deixando-se ensinar pela vida pastoral e pelo Povo de Deus; vigilantes para que as fragilidades e contradições da condição humana não se sobreponham à graça recebida. Ou ainda, “com o olhar e os sentimentos de Jesus, que contempla a realidade não como juiz, mas como bom samaritano; que reconhece os valores do povo com quem caminha, bem como as suas feridas e pecados; que descobre o sofrimento silencioso e se comove perante as necessidades das pessoas, sobretudo quando estas se encontram oprimidas pela injustiça, a pobreza indigna, a indiferença ou pela ação perversa da corrução e da violência” (Papa Francisco, Medellin, 09/09/2017).

Os presbíteros, inseridos no cotidiano da vida de inúmeras comunidades, trabalham muito, anunciando e testemunhando o amor Daquele que nos amou por primeiro (cf. 1Jo 4,10). São homens desapegados, dedicados, despojados, cheios de alegria e generosidade, com espírito de serviço e obediência, em comunhão com seus bispos e irmãos no presbitério, dispostos a promover, animar e coordenar junto às comunidades a obra da evangelização.

Num contexto de mudança de época, o presbítero é um discípulo a caminho; é um homem que busca no cotidiano seguir fielmente o Senhor que não veio para ser servido, mas para servir (cf. Mc 10,45), oferecendo, generosa e gratuitamente a própria vida para que outros “tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

A nova Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, publicada em 8 de dezembro de 2016, propõe indicações para a formação, inicial e permanente, dos presbíteros. Como entender o termo Ratio? Usualmente ratio se traduz para o português como razão, o porquê, o móvel, o motivo, finalidade, meta, fundamento, princípio, causa. Todos esses termos procuram apontar para o mesmo, sem poderem dizê-lo por completo, num único termo. Sintetizando, podemos traduzir o termo Ratio por compreensão essencial. Trata-se, pois, de uma compreensão. Compreender não é um entender qualquer, geral, indefinido, sem determinação, mas sim essencial. Trata-se, pois, da compreensão da essência da ‘institutionis sacerdotalis’. A palavra essência na sua formulação é semelhante à paciência, tendência, obediência, e significa a dinâmica (-ência), o vigor, a vitalidade do ser (esse-ência), o móvel, o fundamento da ‘institutionis sacerdotalis’.

Esse novo documento que trata da questão da formação dos presbíteros aponta, pois, para o próprio da ‘intituitionis sacerdotalis’. Podemos afirmar que o documento expressa a identidade do ser presbítero. Identidade aqui é compreendida, não estática, mas dinamicamente: o que determina e move o ser humano, a partir do fundo dele mesmo (fundamento), qual uma fonte borbulhante (princípio, causa), determinando-o à ação da busca de uma meta (finalidade) que o realiza plenamente enquanto presbítero. Ratio, na Tradição do Ocidental é tradução latina da expressão grega LogV (logos) ou NouV (nous), que significa não apenas uma das “faculdades da alma”, hoje denominada razão, unilateral ao lado das outras também unilaterais, denominadas vontade e sentimento, mas sim o vigor de fundo do ser humano no que ele tem de mais próprio: a liberdade ou na nossa linguagem hodierna autonomia. Ratio Fundamentalis nessa acepção significa então a dinâmica, o fundamento, o núcleo, a essência do ser presbítero, da participação pessoal na ‘institutionis sacerdotalis’, ancorada na força, na vigência da liberdade ou da autonomia humana.

A ‘Ratio Fundamentalis Institutionis sacerdotalis’ é, pois, indicação vigorosa a respeito do quê e do como ser presbítero. Ela exprime o cuidado e o acompanhamento dos presbíteros e de sua formação, enquanto vocacionados a fazer próprios os sentimentos de Cristo Jesus (Fil 2,5), no exercício cotidiano da caridade pastoral, no seio de uma fraternidade presbiteral.

*Arcebispo metropolitano de Porto Alegre (RS) e presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB.


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