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Artigos › 19/07/2018

O pastor, os pastores e o rebanho

“O Senhor é o pastor que me conduz, felicidade e todo o bem hão de seguir-me” (Cf. Sl 22). Desde o Antigo Testamento, a figura do pastor é aplicada à presença e à ação de Deus por aqueles que são por ele amados, quando lhes oferece bom alimento em prados e campinas verdejantes, prepara-lhes uma mesa farta, unge as cabeças com óleo perfumado, tem um cajado que os faz ir adiante, no meio e atrás de seu povo. Deus é visto como aquele que conduz seu povo. Misteriosamente, através de todas as vicissitudes da história, há a certeza de que Deus conduz o seu povo. Pastoreio é acompanhamento!

Jesus, convidando seus discípulos a um momento de descanso (Mc 6,30-34), abre diante deles o coração. Humanamente, podemos até chamar de um desabafo carregado de fecundidade e solicitude: “Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). Tudo o que existe no coração humano ressoa no Coração compassivo de Jesus. Impressiona o fato de convidar discípulos seus de todos os tempos ao descanso (Mc 6,31). Parece ressoar uma palavra profética: “Assim disse o Senhor Deus, o Santo de Israel: Na conversão e na serenidade está a vossa salvação, na calma e na confiança, a vossa força” (Is 30,15). A paisagem bucólica que mostra pastor e ovelhas pelos campos seja um apelo a maior serenidade e paz, atitudes tão necessárias nos dias carregados do afã de fazer muitas coisas, nos quais tantas vezes nos encontramos.

Deus está atento a tudo o que acontece, e Jesus o disse quando afirmou que o Pai trabalha sempre (Cf. Jo 5,17). Depois, o desenrolar dos fatos nos mostrará a solicitude do Senhor com uma multidão faminta! Nada passa desapercebido aos olhos de Deus, e isso dá segurança a quem caminha pelas estradas da vida. A confiança pode conduzir todo o rebanho à abertura de alma, sem receios, no regaço do Pastor. O rebanho do Bom Pastor retome a paz, lançando-se na oração e na entrega em suas mãos. Podemos identificar ainda um convite à superação do protagonismo individualista que muitas vezes nos envolve, ao pensar que tudo depende de nós e de nossas forças!

À esta luz se projeta também a figura dos pastores da Igreja, chamados a tornar presente o único pastor das ovelhas. “Caminhar com o nosso povo, por vezes à frente, por vezes no meio e outras atrás: à frente para guiar a comunidade; no meio, para animar e sustentar; atrás, para manter unida, a fim de que ninguém se atrase demais”. (Visita Pastoral do Papa Francisco a Assis, 4 de outubro de 2013). O pastor “com cheiro das ovelhas” tem sido uma figura apresentada pelo Papa Francisco em todos os quadrantes da terra, o que corresponde à impostação adequada da presença da Igreja junto das pessoas.

É urgente o surgimento de pastores autênticos, com as características elencadas pelo Papa. Podem surgir a partir do amor do próprio Cristo, que efetivamente acompanha o rebanho. Não se trata apenas do Papa, Bispos, Padres, religiosos, religiosas ou religiosos e outras pessoas consagradas, chamadas a tornar visível a figura do Pastor. Todos os fiéis podem igualmente experimentar a responsabilidade uns pelos outros! Que maravilha pode acontecer se nos sentirmos responsáveis pela salvação e pelo encaminhamento na vida cristã das pessoas que vivem ao nosso lado!

É possível fazê-lo se estamos dispostos a acompanhar as outras pessoas com amor. Acompanhar é permanecer no amor, prolongar no tempo e no espaço a acolhida e a animação. É a atitude de quem assume a posição do serviço alegre e do diálogo. Basta ver como Jesus fez com Simão Pedro. Jesus o chama, conhece seu temperamento, repreende, é presença, forma. Ou identificar em Paulo a fineza da caridade: “Dou graças a meu Deus, cada vez que de vós me lembro. Em todas as minhas orações, rezo sempre com alegria por todos vós, recordando-me da cooperação que haveis dado na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou persuadido de que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o acabamento até o dia de Jesus Cristo. É justo que eu tenha bom conceito de todos vós, porque vos trago no coração, por terdes tomado parte na graça que me foi dada, tanto na minha prisão como na defesa e na confirmação do Evangelho. Deus me é testemunha da ternura que vos consagro a todos, pelo entranhado amor de Jesus Cristo! Peço, na minha oração, que a vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, cheios de frutos da justiça, que provêm de Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus” (Fl 1, 3-1).

Acompanhar e pastorear é descobrir a linguagem do amor autêntico e permanecer no amor com generosidade, quando estamos de acordo ou não estamos. É aconselhar com humildade, percorrer o caminho do perdão, sabendo que este processo inclui a cruz e a dor. Trata-se de crer profundamente no outro, esperar contra toda esperança, ver as pessoas e situações com os olhos de Deus, respeitando a liberdade dos outros.

A Palavra de Deus alimente em nós o sonho de um só rebanho e um só pastor (Cf. Jo 10,14-16). Com o profeta Jeremias, tomemos posse de tal sonho, que a Deus pertence e vem a ser compartilhado por todos: “Pois agora sou eu quem vai cuidar de vós. Eu mesmo vou reunir o resto de minhas ovelhas de todos os países para onde as expulsei. Vou trazê-las de volta para sua morada onde vão crescer e se multiplicar. Colocarei à frente delas pastores que delas cuidem de tal modo que nunca mais passem medo ou susto, nem precisem ser contadas. Um dia chegará, quando farei brotar para Davi um rebento justo! Ele reinará de verdade e com sabedoria, porá em prática no país a justiça e o direito” (Jr 23, 2-5).

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará


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