Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé

33º Domingo do Tempo Comum

À medida que nos aproximamos do final do ano litúrgico, a Palavra proclama com mais insistência o tema da vigilância e da perseverança. O Evangelho de hoje, à primeira vista, parece percorrer assuntos desconexos: a beleza do Templo de Jerusalém, o anúncio de sua destruição, alertas sobre falsos messias, guerras, catástrofes e perseguições. Mas há um fio de ouro que sustenta todo o discurso de Jesus: mais importante que as pedras do Templo é a fé que sustenta o coração do discípulo.

O ponto central aparece no versículo 13:

“Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé.”

Jesus não deseja criar pânico nem fazer previsões cronológicas. Ele está ensinando seus discípulos a interpretarem a história a partir da fé, sem se deixarem seduzir por aparências nem paralisar pelo medo. Admirar o Templo, grandioso, belo, imponente, não basta. Templos caem, estruturas se desfazem, construções humanas não são eternas. A solidez que Jesus procura não está nas pedras, mas na confiança em Deus que atravessa crises, perseguições e incertezas.

Por isso Ele adverte: “Não sigais essa gente!”. É um alerta atual. Em tempos de confusão, saturação de informações e “messias” de ocasião, o discípulo precisa aprender a discernir. A verdadeira segurança não se encontra em sinais extraordinários, mas na fidelidade ao Senhor. Mesmo quando surgirem guerras, fomes, terremotos ou perseguições – realidades que marcaram o passado e continuam marcando o presente – o discípulo não perde o chão. O mundo pode tremer; a fé, não. Jesus assegura: “É permanecendo firmes que ganhareis a vida.”

A Primeira Leitura ilumina esta perspectiva. Malaquias usa linguagem forte para anunciar que virá o dia do Senhor, dia de purificação e justiça. Para os soberbos e ímpios, será um fogo abrasador; mas para os que temem o nome do Senhor, nascerá o “sol da justiça”, trazendo salvação. Aqui não se trata de aterrorizar, mas de dar esperança. Deus não é indiferente ao mal; Ele fará justiça. E para os que caminham com Ele, o futuro não é ameaça, e sim promessa. Essa imagem do “sol da justiça” ecoa o Benedictus cantado por Zacarias no Evangelho de Lucas: Cristo é a luz que nasce no meio da noite da humanidade, guiando nossos passos pelos caminhos da paz.

Se Malaquias nos fala da esperança última e o Evangelho nos convida à perseverança, São Paulo, na Segunda Leitura, nos ensina como se vive concretamente essa esperança. Alguns tessalonicenses, por interpretarem mal a pregação sobre a volta de Cristo, haviam caído na passividade. Esperar o Senhor não significa cruzar os braços. Por isso São Paulo é claro: “Quem não quer trabalhar, também não deve comer.”
Não se trata de dureza, mas de uma pedagogia espiritual: a fé cristã não se alimenta de sensacionalismos, e sim do cotidiano bem vivido. Espera-se o Senhor trabalhando, servindo, cumprindo as próprias responsabilidades com retidão e serenidade. Perseverar não é gesto heroico isolado; é constância humilde.

É assim que as três leituras se unem:

  • Malaquias anuncia o julgamento como esperança para os que temem o Senhor.
  • Jesus afirma que, em meio às crises e perseguições, é a fé que sustenta e dá sentido.
  • São Paulo mostra que essa fé se concretiza no trabalho diário, na responsabilidade e na coerência.

Ao final do ano litúrgico, a Igreja nos recorda que o cristão não vive fixado em previsões, mas enraizado em Cristo. Ele não lê o mundo pelo medo, mas pela esperança. Ele não foge da história, antes a atravessa com fé. Ele não se deixa seduzir por falsas seguranças, mas permanece vigilante. E, mesmo quando enfrenta rejeição, perdas ou incompreensões, deposita sua vida nas mãos de Deus.

O mundo pode apresentar sinais inquietantes, mas o cristão não se dissolve no pânico. Ele escuta Jesus dizer: “Não ficará pedra sobre pedra”, e entende que isso não é ameaça, mas convite a colocar os pés no lugar certo. Tudo passa. Só Deus permanece. E quem permanece n’Ele encontra luz, força e paz.

Que este domingo reacenda em nós a vontade de viver nossa fé com firmeza, serenidade e coerência no dia a dia que nos é concedido. Que esperemos o Senhor como quem trabalha, serve e ama. E que, diante de cada crise pessoal, familiar ou social, saibamos ouvir de novo a palavra de Jesus:
“Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé.”

Dom Giovani Carlos Caldas Barroca

Bispo Diocenano de Uruaçu

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