Vigiar é viver a fé na ressurreição

Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

A Igreja, em sua ternura de Mãe, volta hoje o olhar para todos os seus filhos e filhas que partiram desta vida. Como recorda o Missal Romano, enquanto alguns discípulos de Cristo ainda peregrinam na terra, outros estão se purificando, e outros já contemplam a glória de Deus face a face. Contudo, todos comungam na mesma caridade divina, unidos no mesmo Corpo de Cristo, onde a morte não rompe, mas transforma a comunhão. Desde os primeiros tempos, a Igreja oferece piedosamente sufrágios pelos defuntos, celebrando o mistério pascal com fé e esperança. Nos ritos fúnebres, ela proclama que aqueles que se tornaram membros do Cristo crucificado e ressuscitado, pela morte passam com Ele à vida sem fim.

As leituras escolhidas para esta celebração, entre tantas outras possíveis, iluminam de modo singular o mistério da vida eterna.

Jó, em meio à dor e à perda, faz uma das mais belas confissões de fé de toda a Escritura: “Eu sei que o meu Redentor está vivo, e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19, 25-26). A esperança de Jó não nasce de uma fuga da realidade, mas da experiência de um Deus que, mesmo no silêncio, permanece fiel. Ele vê além da carne destruída e, na carne redimida, anuncia a visão de Deus face a face.

O salmo responsorial (Sl 22) prolonga essa mesma confiança: “O Senhor é o pastor que me conduz, nada me falta.” A fé do salmista nasce da certeza de que, mesmo no vale da sombra da morte, o Senhor está presente. O cajado e o bastão são sinais de amparo e direção – imagens do Cristo Pastor que não abandona suas ovelhas, mas as guia através da noite até o descanso eterno.

Na segunda leitura (1Cor 15, 20-28), São Paulo proclama: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram.” Ele é o primeiro fruto da nova criação, inaugurando a vitória definitiva sobre o pecado e a morte. Por um homem, Adão, veio a morte; mas por um homem, Cristo, vem a ressurreição.

Para o cristão, portanto, a morte não é interrupção, mas transformação; não é derrota, mas reinício em outra forma de existência, porque “o último inimigo a ser destruído é a morte” (v.26). No coração do luto, a Igreja proclama a vitória pascal. Por isso, a oração pelos mortos não é sinal de desespero, mas de comunhão – um gesto de fé na vitória definitiva do amor.

O Evangelho (Lc 12, 35-40) nos convida à vigilância: “Ficai preparados, porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes.” Vigiar, no sentido evangélico, não é viver no medo, mas na esperança. É manter os rins cingidos e as lâmpadas acesas, ou seja, viver a fé de modo desperto e perseverante. O servo vigilante é aquele que vive cada dia à luz da eternidade – não por temor da morte, mas por amor à vida que não tem fim.

Assim, a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos não é celebração da morte, mas da certeza da vida eterna. A Igreja não exalta a ausência, mas professa a presença definitiva de Deus que acolhe seus filhos na comunhão dos santos. A oração pelos falecidos é expressão dessa fé que atravessa a morte: cremos que o amor é mais forte do que a morte e que, na comunhão dos santos, os vínculos permanecem e se purificam no amor.

Celebrar esta data é renovar a esperança de que nossa vida está escondida com Cristo em Deus. É professar que a morte não é ruptura, mas passagem; não é perda, mas plenitude. É aprender a viver vigilantes, na confiança daquele que venceu a morte e nos conduz à casa do Pai.

Hoje, diante da memória dos nossos irmãos e irmãs que nos precederam na fé, proclamamos com Jó: “Eu sei que o meu Redentor está vivo.” E com o salmista reafirmamos: “Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois o Senhor está comigo.”

Vigiar é viver crendo que a morte foi vencida e que Cristo nos conduz à vida plena. Que essa esperança nos sustente até o dia em que, reunidos aos que amamos, habitemos todos na casa do Senhor pelos tempos infinitos. Amém.

† Dom Giovani Carlos Caldas Barroca

Bispo Diocenano

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