Deus, Trindade Santíssima, que não nos abandona
Solenidade da Santíssima Trindade e abertura do Jubileu dos 70 anos da Diocese de Uruaçu
Aos presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas e a todos os fiéis leigos e leigas de nossa amada Diocese de Uruaçu: que a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós (cf. 2Cor 13,13).
Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade, e neste mesmo dia abrimos, com ação de graças, o Jubileu dos 70 anos de nossa Igreja particular. Há um sentido profundo neste encontro:tudo o que somos como Diocese brota do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, e a Ele tudo retorna. Quis a Providência que começássemos a recordar a nossa história precisamente no domingo em que a Igreja contempla o mistério central da fé.
Tudo o que somos como Diocese brota do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, e a Ele tudo retorna.
O mistério que sustenta tudo
A Solenidade da Santíssima Trindade celebra o próprio coração da fé cristã: Deus é comunhão de amor, eterna doação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Catecismo ensina que “o mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo” (CIC 234). Esta solenidade brotou da própria oração da Igreja: difundida sobretudo a partir da Idade Média, foi estendida a toda a Igreja latina pelo Papa João XXII em 1334, para louvar Aquele de quem toda salvação procede. Por isso o salmo de hoje, tomado do cântico dos três jovens na fornalha (Dn 3), é puro louvor: bendiz, e bendiz sem cessar. Essa é a atitude justa diante da Trindade e a atitude de um povo que faz memória: louvar, honrar e glorificar eternamente.
“Caminha conosco”: o pedido de Moisés e a resposta de Deus
A primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9) nos leva ao monte Sinai, no delicado momento da renovação da Aliança depois do pecado do bezerro de ouro. Moisés sobe de madrugada com as novas tábuas, e o Senhor desce na nuvem e proclama o seu próprio Nome: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Os estudiosos reconhecem aqui uma das fórmulas mais antigas e mais citadas de toda a Escritura, repetida nos Salmos, em Joel e em Jonas, quase um “credo” de Israel sobre quem Deus é. Diante de tamanha misericórdia, Moisés se prostra e intercede por um povo que ele mesmo chama de “cabeça dura”.
O ápice da súplica é comovente: “peço-te, caminha conosco”. Era um modo humano e analógico de pedir que o Senhor não os abandonasse, pois Deus é Espírito e, em sentido próprio, não “caminha”. E, no entanto, aquele pedido foi atendido de maneira que Moisés sequer poderia imaginar: quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14), Deus mesmo passou a caminhar conosco em Jesus, literal e realmente. O desejo do Antigo Testamento tornou-se carne no Novo.
Jesus revela a Trindade e aponta a direção
Caminhando entre nós, Jesus não apenas nos acompanha: Ele nos indica para onde ir, a casa do Pai: “Vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2). E, ao revelar o Pai e ao prometer e enviar o Espírito Santo, mostra-nos que Deus é Trindade. O Evangelho de hoje (Jo 3,16-18), tirado do diálogo noturno com Nicodemos, condensa tudo numa frase que a tradição chama de “o Evangelho em miniatura”: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito”. Há aqui um movimento trinitário: o amor é do Pai, o dom é o Filho, e o fim é a vida. E Jesus é claro quanto à intenção desse amor: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. A salvação é o desígnio de Deus; a condenação brota apenas da recusa livre em crer.
Eis, então, a direção de nossa vida: nós fomos inseridos na própria vida trinitária, batizados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, é para Deus que caminhamos, e é Ele o sentido de tudo.
Eis, então, a direção de nossa vida: nós fomos inseridos na própria vida trinitária, batizados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, é para Deus que caminhamos, e é Ele o sentido de tudo. A segunda leitura sela essa verdade com a fórmula trinitária mais antiga do Novo Testamento, anterior aos próprios Evangelhos escritos: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo” (2Cor 13,13). Por isso a Igreja a colocou em seus lábios no início de cada Eucaristia: começamos a Missa professando a Trindade que nos reúne.
Deus continua a caminhar conosco: a Igreja e a Diocese
Mas como o Senhor continua a “caminhar conosco” hoje, depois da Ascensão? Por meio dos sacramentos e da Igreja. O Concílio Vaticano II ensina que a Igreja é, “em Cristo, como que o sacramento, isto é, o sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium, 1). A Igreja é a forma visível da presença de Deus no meio de nós, e essa presença se concretiza, de modo palpável, na comunidade organizada em paróquias e na Diocese. Santo Cipriano já dizia, e o Concílio repete, que a Igreja universal se apresenta como “um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4).
É isto que celebramos: por meio da Diocese de Uruaçu, o Senhor caminha conosco. A resposta dada ao pedido de Moisés não se esgotou no Sinai; ela se estende de geração em geração e chegou, concreta e fielmente, até cada um de nós, neste norte goiano.
Setenta anos em que Deus caminhou conosco
Nossa história vem de longe. Ela se insere na longa tradição missionária da Igreja no Brasil, desde a antiga jurisdição da Diocese do Funchal, passando pelo primeiro Bispado da Bahia (1551), pelas subdivisões que deram origem às prelazias de Goiás e Cuiabá, pela elevação da Prelazia de Santa Ana de Goiás a Diocese (1826) e pela criação da Prelazia de São José do Alto Tocantins (1924). Desse longo amadurecimento nasceu a Diocese de Uruaçu, criada em 26 de março de 1956 pelo Papa Pio XII, por meio da bula Cum Territorium, e instalada oficialmente em 30 de maio de 1957, há exatos 69 anos do dia de ontem, abrindo agora o ano jubilar que nos conduzirá aos 70 anos completos.
Ao longo dessas décadas, o Senhor nos enviou pastores zelosos. Dom Francisco Prada Carrera, CMF, e os missionários claretianos lançaram os alicerces; Dom José Silva Chaves consolidou a caminhada; Dom Messias dos Reis Silveira conduziu a Diocese com zelo pastoral; e hoje continuamos, com a graça de Deus, no mesmo espírito. A Diocese cresceu e se organizou em 36 paróquias, distribuídas por 27 municípios e cinco foranias: São Mateus, São Marcos, São Lucas, São João e São Paulo, abraçando sua diversidade geográfica e cultural e procurando ser sinal do Reino de Deus nesta terra. E tudo isso sempre sob a proteção do Imaculado Coração de Maria, nossa Padroeira, sob cujo manto a Diocese inteira está confiada, como expressa o nosso próprio brasão.
O sentido do Jubileu: memória, gratidão e renovação
Na Sagrada Escritura, o Jubileu (Lv 25) era o ano santo da graça: tempo de libertação, de reconciliação, de restituição e de retorno à origem, em que Israel reconhecia que a terra e a vida pertencem a Deus. Jesus inaugurou seu ministério proclamando “um ano de graça do Senhor” (Lc 4,19). Celebrar 70 anos é, sobretudo, reconhecer a fidelidade e a misericórdia de Deus; é dar graças pelos inúmeros benefícios por Ele concedidos; é assumir com responsabilidade o presente; e é discernir, com fé, o futuro que ao Senhor confiamos.
Por isso convido cada paróquia, cada comunidade, cada pastoral e movimento a viver intensamente este Ano Jubilar como tempo de comunhão, reconciliação e renovação, aprofundando nossa unidade como um só corpo em Cristo. E, num gesto piedoso e comunitário, no dia 19 de junho de 2026, em Goianésia, consagraremos nossa Diocese a São Miguel Arcanjo, no evento diocesano A Grande Reconquista, gesto público pelo qual confiamos nossa história, nosso presente e nosso futuro à proteção de Deus, por intercessão daquele que a Escritura chama de “o grande Príncipe, defensor do povo” (Dn 12,1).
Demos graças e continuemos a caminhada
Hoje, irmãos e irmãs, fazemos nossas as palavras de Moisés e damos graças porque o Senhor, em sua Trindade Santíssima, não nos abandonou: Ele caminhou, caminha e continuará a caminhar conosco, no Filho que se fez carne, no Espírito que nos santifica, na Igreja que nos congrega e, concretamente, nesta Diocese que nos gerou na fé. Que o Imaculado Coração de Maria continue a nos guardar; que São Miguel Arcanjo seja nosso defensor; e que este Jubileu nos ajude a amar ainda mais a Igreja à qual somos chamados a servir.
A vós louvor, honra e glória eternamente!
Com minha bênção e estima pastoral,
† Dom Giovani Carlos Caldas Barroca
Bispo Diocenano de Uruaçu




