Pedro faz a pergunta de todo mundo que já foi ferido: “até quantas vezes devo perdoar?” É uma pergunta honesta, queremos saber onde termina o dever, a partir de que ponto a ofensa recebida já nos dá o direito de parar. Jesus responde de um jeito estranho: não dá um número maior, usa a mesma expressão que o livro do Gênesis coloca na boca de Lamec, o homem que jurou vingar-se “setenta vezes sete” de quem o ferisse (Gn 4,24). Jesus pega a fórmula da vingança sem limite e a transforma em fórmula do perdão sem limite, numa única frase que inverte a lógica mais antiga da humanidade ferida.
Jesus pega a fórmula da vingança sem limite e a transforma em fórmula do perdão sem limite
E essa inversão tem uma raiz mais profunda do que parece à primeira vista. O Salmo deste domingo canta que “o Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso”, quase uma citação literal do momento em que Deus revela seu próprio nome a Moisés, logo depois da maior traição de Israel, a idolatria do bezerro de ouro (Ex 34,6). A compaixão, ali, é a própria definição de quem Deus é. Perdoar como o Pai perdoa, então, é deixar-se levar por essa mesma identidade, muito além de imitar à distância um exemplo admirável.
É esse o passo que Paulo dá na segunda leitura, e vale a pena parar nele com calma. Ele está resolvendo um conflito bem concreto entre cristãos de Roma, que se julgavam mutuamente por causa de dias de jejum e regras alimentares, o tipo de discussão pequena que costuma azedar comunidades inteiras, e não uma teologia abstrata sobre a morte. E a resposta de Paulo vai além de um apelo à boa vontade. É uma declaração de pertencimento: “ninguém vive para si mesmo ou morre para si mesmo… vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor.”
Isso muda o registro inteiro da questão. Enquanto pensarmos o perdão como um esforço moral, algo que fazemos apesar de nós mesmos, vencendo a vontade natural de revidar, ele continuará sendo um peso, uma virtude difícil reservada para os mais evoluídos espiritualmente. Mas Paulo desloca o centro: se já não sou dono da minha própria vida, também não sou dono do direito de cobrar, julgar ou guardar rancor do meu irmão. A vida entregue ao Senhor já não pode ser vivida pela lógica da revanche, porque a revanche pressupõe alguém que ainda administra sozinho o que é seu. Quem pertence a outro dono já não maneja a existência dessa maneira.
Por isso o perdão, na perspectiva paulina, nasce de uma identidade assumida, sou de Cristo, e por isso já não posso reagir como reagiria alguém que só é dono de si mesmo, muito mais do que de um esforço de vontade isolado a cada ofensa.
O Evangelho traduz essa mesma verdade em números que ninguém escuta com indiferença. Um servo deve ao rei dez mil talentos, uma cifra propositalmente absurda, equivalente a dezenas de milhões de jornadas de trabalho, dívida impagável em qualquer cenário possível da vida real. Esse mesmo servo, perdoado, encontra um colega que lhe deve cem denários, uma quantia real, do tipo que de fato acontece entre pessoas que convivem, mas incomparável com a que ele próprio acabara de receber perdoada. E ele se recusa a perdoar.
O texto marca o gesto do rei com uma expressão forte: ele foi “movido nas entranhas”. É a mesma palavra que os evangelhos usam para descrever Jesus diante da multidão faminta ou dos cegos à beira do caminho. É reação visceral de quem vê o outro por dentro e não consegue ficar indiferente à sua miséria, longe de qualquer clemência calculada ou decisão fria que pesa prós e contras. O perdão do Pai nasce desse tipo de compaixão, anterior a qualquer cálculo de justiça equilibrada.
É por isso que “setenta vezes sete” fecha justamente a possibilidade da conta, em vez de apenas alongá-la. Quem ainda pergunta “até quantas vezes” continua, no fundo, na lógica de Lamec, só que com um teto mais alto. Jesus propõe outra coisa: sair do sistema da cobrança. Por isso o relato termina como termina, marcando o lugar exato onde o perdão precisa acontecer: “se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.” Do coração, não do gesto contido, não da cortesia forçada, mas de uma disposição permanente que já não vive contando ofensas nem medindo o tamanho das dívidas alheias.
Essa disposição vem de um pertencimento, não da imitação à distância de um exemplo bonito. Paulo já havia dito: pertencemos ao Senhor, vivos ou mortos. Esse pertencimento tem um preço que a parábola apenas sugere através do gesto do rei; a cruz o mostra por inteiro. A dívida impagável de cada um de nós não foi cancelada por decreto distante, foi carregada por Cristo, que deu a própria vida para que fôssemos filhos, e não devedores em eterna cobrança.
A dívida impagável de cada um de nós não foi cancelada por decreto distante, foi carregada por Cristo, que deu a própria vida para que fôssemos filhos, e não devedores em eterna cobrança.
Perdoar do coração, então, é deixar que a mesma vida recebida de graça, no sacrifício de Cristo, continue circulando através de nós até alcançar o irmão, bem mais do que um esforço extra que arrancamos de nós mesmos a cada vez que somos feridos. Somos filhos porque fomos perdoados a esse preço; e permanecemos filhos, de fato, na medida em que essa filiação se traduz também em perdão oferecido, não como exceção rara diante de uma grande ofensa, mas como o jeito comum de viver de quem sabe a quem pertence.
† Dom Giovani Carlos Caldas Barroca
Bispo Diocenano de Uruaçu




