Dom Francisco Prada Carrera

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DADOS BIOGRÁFICOS e ALGUNS RELATOS DA VIDA DE DOM FRANCISCO PRADA,
primeiro bispo de Uruaçu – GO

Dom Francisco Prada Carrera nasceu na cidade de Priaranza Del Bierzo – Leon, Espanha, a 27 de julho de 1893, sendo filho legítimo de Tirso Prada e Cristina Carrera. Ingressou na Congregação dos Padres do Imaculado Coração de Maria (Clarentianos) muito jovem. Ordenado Sacerdote a 12 de junho de 1917 em Santo Domingo de La Calzada, Espanha. Padre jovem, veio para o Brasil onde exerceu o Ministério Sacerdotal como pregador de missões populares, superior em várias casas de sua Congregação, vice-provincial.

Seu ministério nas terras goianas se deu início com a sua nomeação para Administrador Apostólico da Prelazia de São José do Alto Tocantins, em 10 de dezembro de 1937. Durante o tempo de prelado construiu o Seminário na cidade de São Domingos, os colégios de Niquelândia, Itapaci, Uruaçu e Posse, casas paroquiais, diversas igrejas e capelas, entre elas o Santuário de Nossa Senhora d’Abadia (Muquém).

  • Foi sagrado Bispo no dia 20 de outubro de 1946, no Santuário do Coração de Maria, em São Paulo.
  • Com a criação da Diocese de Uruaçu, em 26 de março de 1956, foi nomeado primeiro bispo desta Diocese. Sua tomada de posse se deu no dia 30 de maio de 1957.
  • Como bispo diocesano, suas principais obras foram: construção da igreja Catedral e do Palácio episcopal, aquisição de chácara e pequena fazendo em vista da construção do novo Seminário.
  • Permaneceu no governo diocesano até o ano de 1976 quando Dom José Chaves assumiu a Diocese.
  • Faleceu no dia 07 de junho de 1955. Está sepultado na Catedral Imaculado Coração de Maria (Uruaçu).

Relatamos aqui alguns trechos escritos por Dom Prada onde ele deixa registrada a realidade aqui encontrada e algumas de suas experiências.

“Com o nosso coração se confrange sempre que na leitura dos livros sagrados deparamos com as precedentes palavras: O Divino Mestre via nelas as ovelhas sem pastor. E elas trazem a nossa memória o imenso campo da Prelazia pontilhado de sítios e fazendas quase abandonados à própria sorte.

Na sede da paróquia são as ovelhas que procuram o pastor, fora, é o pastor que deve ir à procura das ovelhas. Isto, não como um ato de benevolência, e, sim, como dever de justiça.

Todas são ovelhas do rebanho, todas devem ser apascentadas.

Com a vastidão do território e o reduzido número de operários, é de imaginar a angústia dos pastores ante a dificuldade de fornecer o devido alimento.

As precedentes palavras dão bem a entender que sempre foi olhado com grande interesse o atendimento do povo do interior, isto é, dos que residiam fora do lugar onde o sacerdote tinha sua morada habitual.

Houve sacerdotes que eram considerados hóspedes na sede por se acharem habitualmente fora, em convivência permanente com o povo esparso pelos campos.

Na marcação dos pousos, no giro ou desobriga paroquial, teve-se em mira que não estivessem muito distanciados uns dos outros, a fim de que todos encontrassem facilidade de beneficiar-se da presença do ministro sagrado.

Era óbvio que nos núcleos de maior população essas visitas fossem mais freqüentes e espaçadas, mormente por ocasião de festas.

O resultado desta evangelização levada a sério foi altamente benéfico. Recebemos um campo em completo abandono. Nada de admirar que as más ervas o cobrissem.

Já citamos acima, as palavras com que o eventual dono o entregara aos novos cultivadores: “Aqui está tudo por fazer. A mancebia está na ordem do dia. Os sacramentos abandonados. As casas de oração em ruínas”. Foi esta trilogia que os novos operários incluíram no programa de ação a ser desenvolvido: moralização da família, declarando guerra sistemática ao concubinato generalizado. Promoção da freqüência dos sacramentos da penitência e eucaristia, o que importava um longo e penoso atendimento no confessionário. Decretação de que todo núcleo de população, por pequeno que fosse, tivesse sua casa de oração, o que incluía a reconstrução de muitos porquanto em algumas zonas, em virtude das novas vias de comunicação, foram aparecendo inúmeros núcleos, por exemplo na Belém-Brasília. O resultado foi altamente positivo. Um capítulo a parte mereceria agora o relato de mil incidentes, das indústrias adotadas na realização dos planos, e, sobretudo, do acervo de dificuldades que houve de ser vencido. Nele teria lugar de destaque as viagens longas a cavalo, debaixo de um sol causticante ou chuvas enlameando as estradas e dificultando a vadeação dos córregos. Dormida em rede nada apta a agasalhar contra o frio no inverno, não raro com a molesta companhia de famintos bichinhos que sorrateiramente o assaltaram nas estradas. Agregue-se a isto o trato pouco amigo, às vezes, de gente inculta, incapaz de compreender a razão de recusa a pretensões inadmissíveis, talvez maquinando vingança por causa de uma palavra menos caridosa, do que podiam ser citados exemplos, nos quais não faltou uma providencial intervenção divina.

São estes sofrimentos condição “sine qua non” de todo apostolado, produzem o efeito da evaporação das águas do mar que trazem as chuvas que fertilizam os campos.

Quero encerrar esta página com fecho de ouro evocando a memória do apostólico Bispo D. Florentino Simon. A sua última visita pastoral compreendeu uns quarenta lugares.

Começou em Sítio de Abadia. Percorreu toda a paróquia de Posse, o mesmo fazendo com a de São Domingos. Atravessou o vale do Paraná e a chamada Chapada dos Veadeiros e Muquém. Foi o seu canto de cisne. Daí seguiu para São Paulo ferido de morte. Ali foi receber o prêmio dos sacrifícios daquela visita.”

(DOM PRADA,Memória da Prelazia de S. José do Alto Tocantins – Goiás, 1977, p. 63-67)

Entrada na seara

Mons. Olimpio Pitaluga, Vigário de Anápolis-GO, em viagem de negócios a S. Paulo procura hospedagem na casa dos Padres clarentianos. No regresso acompanha-o o novo Prelado que vai tomar posse da Prelazia de S. José do A. do Tocantins.

Uma mão se lava com outra mão. Agora em Anápolis é Mons. Pitaluga que vai dar hospedagem ao Prelado claretiano. É o mês de março. Está chovendo muito. Após oito dias de espera, finalmente é anunciada a ida de um caminhão para S. José. O motorista, dono do caminhão, tem a gentileza de oferecer-lhe um lugar na por eles chamada, a boleia-a cabine. Assim estará abrigado contra a chuva. Se eu desse o nome de uma “odisséia” a esta viagem, não estarei exagerando. Basta dizer que para percorrer as 40 léguas que separaram Anápolis de S. José foram necessários oito dias, isto é, uma média de 5 léguas por dia.

Na estrada sobre os inúmeros córregos, perigosos mata-burros suprem as pontes. Não só burros, mas também gente podem eles matar. Isto explica a precaução tomada pelo motorista que antes de atravessar os ditos mata-burros invariavelmente falava assim ao Prelado: “por favor, desça, pois não quero que se possa dizer que eu matei um Prelado”. Na verdade, não achava nisto grande favor, obrigado a passar a pé por um estreitíssimo, chamemo-lo, caibro.

Estamos à beira do rio Maranhão, a 12 léguas de S. José. Aboletados numa pequena casa nos preparamos para dormir sobre uma esteira, eis que o motorista resolve seguir viagem. Para mim foi uma ótima notícia. Assim poderia celebrar o santo sacrifício da Missa, o que não fazia durante uma semana. Naqueles dias repercutia em meus ouvidos o que o grande Geral Pe. Alsina, nos dissera aos Padres jovens: “nunca deixem de celebrar a Santa Missa pois uma missa dá muita glória a Deus”.

E contava o fato de ele estar passeando pelo convés do navio, rumo a Londres, triste, por não poder celebrar, por não ter uma pessoa que estivesse presente, o que então era exigido. Disse-nos que viu abrir-se o céu quando uma senhora lhe manifestou desejar ouvir a missa. Correu e preparou o seu altar portátil. Pôde celebrar com aquela senhora presente. E feita esta digressão, voltemos ao nosso caminhão. Às três horas da madrugada entrava fonfonando sem parar, em S. José. Senti ter perturbado o sono dos Padres.

Após a missa, um apequena charanga improvisada, supria a recepção preparada.

Marcada a tomada de posse para o dia do padroeiro, 19 de março, temerosos os Padres de pouco comparecimento por parte do povo acudiram a este recurso: após a missa haverá bebidas e bolo. E a igreja ficou superlotada.

Com que fruição recordamos estes pequenos detalhes após 40 anos de acontecidos…

(PRADA, Dom Francisco, Reminiscências de um Bispo. Goiânia, 1979, p. 13-14)

 

Viagem Dramática

“Era o mês de fevereiro. Muita chuva. No entanto devíamos viajar para a longínqua Posse. Nossa presença era requerida urgentemente. Um dos Padres estava sendo processado por suposta falação contra o casamento civil. Na realidade ele afirmara que para o católico o verdadeiro casamento é o imposto por Deus. É o que sempre ensinou a Igreja.

A viagem, segundo prévia combinação, seria feita de caminhão – São José – Anápolis – Vianópolis – Formosa. Daí a Posse na tropa que de Posse trouxera o Pe. Luis, entretanto, contrariando o que fora combinado, entendeu de chegar com a tropa até S. José. Com isto atrapalhou os planos.

A tropa devia regressar a Posse. Mandá-la com um rapaz de 15 anos que acompanhara o Pe. Luis era uma grande temeridade, num tão longo trajeto. Fazer toda a viagem a cavalo – mais de 100 léguas, era o mais prudente alvitre.

Demos três dias de descanso aos animais, e iniciamos a longa caminhada. Ela se prolongará por 15 dias em que cada um terá seu peso, seu sofrimento.

Até as vizinhanças de S. João d’Aliança, nos acompanhará o Lucas, também gente de casa. Vai visitar familiares.

A primeira jornada terminará no rio Bagagem. Aí começará o nosso Via-Crucis. O pouso para todos seria na outra margem do rio. Por ser já noite o barqueiro recusou-se a passar os animais. Por muito favor passamos eu e o Joaquim. Ficou no lado de lá Lucas com a tropa.

Ao amanhecer ouvimos o grito dele. Nos abeiramos do rio. Lá estava ele com os animais, menos um. Este saira do pasto. – Também o barqueiro estava a postos. Foi passando os animais. Ao passar o meu, já na margem oposta, quis ganhar a ribanceira, e, não podendo, caí estatelado sobre a água, com perigo de afogar-se. Eu tinha conseguido pegar o cabresto e me esforçava por manter a cabeça fora da água. Inesperadamente, dá um pulo e se põe a salvo, me derrubando, felizmente sem piores conseqüências.

Partimos para frente. O Lucas foi campear, em busca do animal fugido. A uma légua havia um pequeno povoado. Um acontecimento ver ali um Bispo. Houve missa, batizados, crismas e desde já confissões e comunhões.

Almoçamos e partimos com chuva. Com a capa de borracha nos defendemos dela. Paramos junto a um córrego que tinha o nome de Valente. De fato lhe correspondia o nome, pela impetuosidade das águas. Alguém, a beira, nos avisa que não dá passagem. Era necessário esperar que as águas baixassem.

Como estava chegando a hora de jantar, tirando-os das bruacas, entregamos a uma velha, ali moradora, as ricas iguarias, feijão, arroz, toucinho para serem cozinhados. Não sei por que os alimentos, tomados no campo, são mais gostosos… E desta vez os tornou mais agradáveis a alegria de ver chegar o Lucas trazendo o tal animal.

As nuvens ameaçam muita chuva. Ela nos deterá talvez um dia, talvez dois a margem do córrego.

Diante disto ouço dizer: ‘– Bispo, tem coragem para, mesmo com a braveza em que está, tratar de vadeá-lo?’ Contra um valente, respondi, outro valente: ‘—Vamos’. Ele, tirando a roupa e ficando in pellibus Adami armado de grosso bordão, pegou do cabresto do meu animal e me disse: ‘– o Sr. Segure-se bem’, e fazendo o sinal da cruz, jogamos o animal na água. Ele luta, luta, para não ser levado pela correnteza. Foi cousa de minutos. Por fim, estávamos na beira oposta. Agora era a vez dos dois rapazes e do cargueiro. Estes me gritam que ficam com medo de passar. ‘– Então, fiquem aí. Eu vou embora. Até amanhã’.
Finalmente cobraram coragem e passaram. Antes tomei providências para que não se molhassem os paramentos sagrados. Nós todos estávamos molhados até a cintura.
O homem que puxara do cabresto, morava a duas léguas, numa casa de palha. Ali chegados tratamos de enxugar a roupa na lareira.

Rezamos o terço e dormimos sobre um montão de palha, pois as redes estavam molhadas.
À meia noite, ouvimos do lado, tiros de espingarda. ‘Que será?’, nos perguntamos. Ao dia seguinte, logo ao amanhecer, o homem da casa me procura e me explica a razão daqueles tiros. ‘O cachorro comeu o cabresto do seu animal, e por esse motivo, matei o cachorro…’ ‘Não, não , meu animal, o Sr. fez mal – o cachorro tinha forme e foi saciá-la. Ele não tem inteligência. Mais do que ele, mereciam castigo estes meus camaradas, ao deixar o cabresto no chão, quando ele devia estar dependurado’.

E fomos preparar a celebração da Santa Missa. Naquela casa, tão pobre, nem ao menos havia uma pequena mesa. Colocar a toalha e corporais onde?… Ao lado, avisto uma dessas grandes casas de cupim, de uns 60 cm. de altura. Está resolvido o problema. Aplaino a superfície sobre ela estendo a toalha. Terei talvez o direto de invenção. Duvido que outrem me tenha precedido.

Sorvemos uma garapa, e partimos. O pouso foi marcado pelo Pe. Luis. A casa de Joaquim Roxo. Um pouco longe.

Ao meio dia passamos diante de uma casa de sitiante, na aparência remediado. Entramos a saúda-lo, e nos convida a almoçar. Como recusar?… Ainda fizemos o batizado de um filhinho.

Reiniciamos a caminhada e passamos por um campo de vegetação mais vigorosa. Meia hora depois, o animal de carga deita-se no chão. Tinha comido erva na passagem daquele campo. Devemos passar a carga para um outro animal de reserva. Aquele ficará ali mesmo. Rezamos um Pai-Nosso e pedimos a Sto. Antonio que o defendesse contra as onças que nos disseram haver por ali. Atravessamos o rio Bagaginha e começamos a subir a serra. Eis que desaba sobre nós uma chuva torrencial que nos dificulta a marcha.
E veio a noite. Com a escuridão, o camarada não percebeu o desvio que levava para a casa de Joaquim Roxo.

Que fazer?… Apear e passar a noite ali mesmo. Ao amanhecer quero saber que horas eram. Vou procurar o relógio e caio na conta que ele caira ao tirar o guarda-pó. Felizmente foi encontrado.

Já dia claro, queremos orientar-nos. É então que o Joaquim exclama: ‘olhe lá a casa do Joaquim Roxo!’ Para ali nos dirigimos. O Sr. Joaquim estava na porteira. ‘ – Bom dia, Sr. Joaquim; Olhe, nós quisemos pernoitar em sua casa, mas não pudemos nos orientar por causa da escuridão da noite.’ ‘ – Coitados!’, exclamou. Sua barba lhe dava o aspecto do patriarca Abraão.

‘ — Vamos entrar, Sr. Bispo. Hoje o Sr. Vai descansar aqui. Temos por aí uns sobrinhos já cabeludos sem batizar, e eu não estou casado, e quero me casar.’ E ali ficamos aquele dia.
No dia seguinte, ao partir, nos pergunta: ‘– Quanto lhe devo pelos batizados e meu casamento?’ ‘– Ah, não fale nisso, Sr. Joaquim, o Sr. me deu esta tão caridosa hospedagem… Uma cousa vou lhe pedir: procurar um animal que deixei ervado, junto do rio Bagaginha. Traga-o para aqui e então mo entregará.’ E o Sr. Joaquim nos acompanhou durante léguas, para mostrar-nos o caminho.

Íamos chegando a um pequeno botequim. Ali queriam nos fornecer alimentos. Havia ali um grande barreiro. O animal de carga se afunda nele e ao levantar-se, com o esforço, quebrou a cangalha… Carregando no ombro as bruacas chegamos aquela venda. A minha grande preocupação era não poder levar as bruacas. Por isso, mal dera a boa tarde ao dono da venda, fui perguntando: ‘– por acaso o Sr. não terá uma cangalha para vender?…’ ‘– Tem, sim, Sr.’ ‘Graças a Deus!’, exclamei.

Despedimo-nos do bom Joaquim Roxo e continuamos viagem.

Já entrando a noite avistamos uma casa na estrada. Chamamos, chamamos, oh de casa. Ninguém respondia. Vimos que estava largada. Entramos e ali pernoitamos. Ao dia seguinte alguém nos disse que pouco antes ali morrera um leproso.

Vou parar aqui, advertindo que cada dia aparecia um sofrimento. Tivemos que comprar dois animais e largar na estrada. Outros dois impossibilitados de viajar. Na volta pudemos recolhe-los.

Quisemos deixar aqui uma mostra do que foram as nossas viagens através da Prelazia, naqueles difíceis tempos. Sem dúvida que elas formam parte da história da Prelazia.

Falando em viagem devemos frisar, ser ou ter sido o animal o único meio de transporte durante muitos anos. Sem pretendê-lo cada um acaba sendo bom cavaleiro, o que não impede que de quando em vez um tombo venha quebrar a monotonia.
De dois deles conservo boa memória.

Um deles na entrada de S. Domingos. Ao atravessar o rio sobre a ponte, o animal recua por qualquer empecilho, cai sobre a ponte, o cavaleiro quer safar-se do animal, o pé porém não quer sair do estribo, luta por alguns segundos até que finalmente consegue despegar-se. O Pe. José que atrás contempla aflito aquela luta exclama ao vê-lo salvo: ‘O senhor hoje ressuscitou’.

O segundo na paróquia de Itapaci, está chegando ao lugar do pouso, na fazenda Farofa. Distraído, não se apercebeu de um córrego. O animal prefere dar um pulo a molhar as patas. Aí, sim, o tombo foi fenomenal. A pé acaba de chegar a casa. Pede água com sal, mas a dor continuou toda a noite, deitado num colchão no chão, sem ânimo de tirar a roupa. Um terceiro tombo é com o animal cargueiro. Vai descendo a íngreme encosta de Forte. Tropeça e cai, dando voltas, montanha abaixo, até parar numa árvore que lhe serve de barreira.

Apresentei estas amostras, entre muitas outras, pois elas também pertencem ao que denominamos história.”

(DOM PRADA, Memória da Prelazia de S. José do Alto Tocantins – Goiás, 1977, p.73-78)

 

Telegrama fraudulento

“Conhecemos o território do hoje Município de Campinorte quando ainda não existia o povoado. Fizemos a visita pastoral num pequeno Sítio que na ocasião era conhecido com o nome de ‘Campininhas’. Daí se originou, creio eu, o atual nome da sede do Município – Campinorte: lembro-me que existia uma espécie de rivalidade entre estes dois incipientes povoados, Matão e Campinorte. Campinorte conseguiu suplantar Matão, a meu ver, por causa do Patrimônio doado pelo Sr. Sebastião Martins, o que facilitou o povoamento. A Matão faltou-lhe este ato de generosidade por parte do dono da terra, o Sr. Xirico.

Mas a razão que indiscutivelmente concorreu para o rápido crescimento de Campinorte, foi a estrada Belém-Brasília, que passa ao lado. Depois de passar pelos anos de infância e adolescência, chegou-lhe também o dia da mocidade, isto é, o de gozar de vida própria, o de independizar-se de Uruaçu.

E para tal fim começou a preparar os papéis. Sem a suficiente maturidade, reclamou para herança mais do que a prudência e a mesma justiça aconselhavam. A ambição tomou conta dos líderes que quiseram avançar e levar os limites aonde o Pai, Uruaçu, não podia concordar. Resultado: na Assembléia, no dia da decisão, os Deputados optaram por seu arquivamento. E quem ia pensar que o Prelado de Uruaçu teria uma parte decisiva no arquivamento.

Foi assim que à Assembléia dos Deputados chegou um telegrama que se dizia assinado pelo Prelado, de Uruaçu, em que se afirmava que este se opunha a criação do Município.
É de imaginar a contrariedade deste ao receber a queixa de um dos líderes de Campinorte, e que assistira a Sessão em que foi decidido pelo arquivamento, e declarando que aquele telegrama influira no ânimo de grande número de Deputados para se pronunciar a favor do arquivamento.

O autor do telegrama fraudulento, talvez ouvira dizer que o Prelado se opunha a que fossem reconhecidos os limites assinalados no Projeto, nunca, porém, ele foi contrário a criação do Município.

É de prever a difícil situação em que o Prelado ficava diante dos habitantes de Campinorte. Era necessário desfazer urgentemente o mal entendido.

Já ao dia seguinte, o Prelado tomava uma passagem no avião da Vasp que nessa época pousava em Uruaçu, e chegado a Goiânia, dirigiu-se diretamente à Assembléia Legislativa. Recebido pela Deputada Almerinda Arantes e o Secretário da Assembléia Sr. Dercílio Meirelles – expôs o fim daquela visita certificar-se, se, de fato, fora enviado o telegrama de referência. Logo o Dercilio foi a procura de uma pasta onde está todo o processo da criação do Município, e lá, bem patente, afixado o fatal telegrama.

Lavrado o protesto, pedi encarecidamente aos Deputados presentes que desarquivassem o processo, pois eu sempre fui um dos mais acérrimos partidários da criação do Município.
A seguir, me dirigi ao Palácio das Esmeraldas. Recebido pelo Sr. Governardor, José Ludovico de Almeida, contei-lhe a chantagem que tinham usado comigo e roguei-lhe que se interessasse pela criação do Município. Mais ainda, ciente de que o autor do fraudulento telegrama era o próprio telegrafista de Uruaçu, solicitei dele a demissão de um funcionário desonesto como aquele. Informado que tal medida era da atribuição do Diretor dos Correios e Telégrafos, imediatamente me dirigi para aquela repartição onde consegui falar com o Diretor, solicitando dele a demissão de tal funcionário ao que ele anuiu facilmente, ainda tendo a amabilidade de designar o candidato que eu levava no bolso, a pedido de cidadãos de reconhecida dignidade.

O fato que precede nos descobre os tortuosos meandros em que se move a política. Quis ela envolver em suas malhas o Prelado. A Igreja, com prudência com que se houve sempre em seus atos, proíbe aos membros do clero inmiscuir-se na política partidária, não se interessar pela existência de uma boa política, o que será um fato quando a ordem política esteja sujeito a ordem moral. Cumpre por tanto, a Igreja, orientar a política pelos critérios da fé, definindo com clareza as exigências que da ordem moral decorrem para a ordem política.”

(PRADA, Dom Francisco, Reminiscências de um Bispo. Goiânia, 1979, p. 99-98)